terça-feira, 27 de setembro de 2016

Comunidade surda enaltece suas vitórias no Farol da Barra

Famoso cartão postal de Salvador recebeu passeata sinalizada que mobilizou vários participantes como forma de antecipar as comemorações pelo Dia Nacional do Surdo


Caminhada promovida pelo Ceclis, cujo presidente é o professor Milton Bezerra Filho (abaixo, à direita, segurando a faixa), visou celebrar as lutas e conquistas alcançadas pelos deficientes auditivos
(Foto: Divulgação – 25/09/2016)

Uma típica e ensolarada tarde de domingo no Farol da Barra. Essa cena comum em um dos belíssimos e mais frequentados cartões postais soteropolitanos acabou se transformando numa oportunidade ímpar de alegria, cidadania e ação social quando dezenas de militantes aglomerados em prol dos direitos da pessoa com deficiência auditiva resolveram antecipar o Dia Nacional do Surdo, comemorado de fato nesta segunda-feira (26), com uma passeata sinalizada em língua brasileira de sinais (Libras).

Promovida pelo Centro de Estudos Culturais e Linguísticos Surdos (Ceclis), em parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos (Apada) e com o apoio das instituições municipais mobilizadas pela causa da comunidade surda, a passeata teve o seu trajeto iniciado no Largo do Farol da Barra, com chegada no calçadão, em frente ao Barra Center. A iniciativa, que teve como objetivo celebrar as lutas e conquistas alcançadas pelo segmento, confirmadas na Lei 13.146/2015 – o Estatuto da Pessoa com Deficiência –, integrou o projeto Viva Sempre Libras nas Ruas, do Ceclis.

Como a maioria trabalha na segunda-feira, então a comunidade decidiu que faria essa caminhada de festa, de alegria e de comemoração à língua brasileira de sinais, que é um artefato cultural que marca a identidade da comunidade e da cultura surda, no dia de hoje (domingo), aqui no Farol da Barra, que é uma praça, um local de encontro, onde as identidades podem estar se encontrando, os surdos estão com seus pares”, disse a coordenadora do Núcleo de Saúde do Surdo da instituição, psicóloga Márcia Araújo.

Também presente na ocasião, o presidente do Ceclis, professor Milton Bezerra Filho, recebeu, no último dia 21, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, a Medalha Thomé de Souza. A outorga da honraria ao primeiro pedagogo surdo da Bahia, aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Salvador, fora proposta pelo vereador Léo Prates (DEM) e realizada em sessão solene no mesmo dia em que se comemorou o Dia Municipal do Orgulho da Pessoa com Deficiência, instituído a partir de uma proposição do parlamentar.

A gente agradece ao vereador Léo Prates por ter oferecido a medalha ao primeiro surdo do estado da Bahia a receber uma comenda de tamanha honraria, porque sempre as pessoas que a recebem são pessoas normais. Então, é a primeira vez na história que a Câmara de Vereadores de Salvador oferece essa honraria a uma pessoa com deficiência. Isso é um marcador que mostra que o surdo tem valor, e que a comunidade surda é forte e tem visibilidade”, orgulhou-se Márcia.

Na opinião de militante, passeata fez com que os surdos se articulassem em um movimento de alegria, união e luta
(Foto: Hugo Gonçalves – 25/09/2016)

Movimento pela libertação

Integrante do Conselho Fiscal do Ceclis, Silvana Andrade de Matos declarou estar muito feliz pela oportunidade de os surdos se articularem “nesse movimento de alegria, de união e de luta”. “Hoje (Domingo) é um grande dia, é um dia em que vamos fazer um movimento, é um dia de liberdade da língua brasileira de sinais. Eu estou muito feliz porque o Ceclis, a associação em que eu estou como diretora, está nesse movimento de luta social pela libertação da língua brasileira de sinais”, reiterou.

O jovem militante surdo Alex Fernandes compareceu à passeata sinalizada devido à importância que a comunidade à qual ele pertence, que é passível de preconceito, demonstra, de modo a contribuir na diminuição desse sério obstáculo que perpetua nas estruturas de grupos minoritários como as pessoas com deficiência auditiva. “Existe muito preconceito com a língua de sinais, (e consequentemente) muito preconceito com o surdo. Eu vim lutar contra o preconceito, e vim mostrar essa importância de valorizar a pessoa surda”, comentou Alex, evidenciando sua batalha.

Mãe de Cristiana, 41 anos, a psicopedagoga e educadora de surdos Eliane Campos Gil Ferreira a acompanha, com a permanente colaboração dos familiares, através de uma boa educação. “Ela estudou em escola para surdos, e atualmente está incluída. Numa instituição, ela participa de grupos de inclusão. A superação já é buscar, com todas as dificuldades que tem, estar estudando, e completar o estudo dela”, explicou, acreditando no futuro de sua filha, que apesar de surda possui ainda baixa visão.

De acordo com o professor de Libras José Alcides, a caminhada foi mais uma convocação do movimento das pessoas com deficiência auditiva. “Geralmente, eu participo porque eu atuo nessa área como professor de Libras e desenvolvo também uma atividade sociocultural com ensinamento de músicas sinalizadas”, disse Alcides, referindo-se ao Coral Mãos Brilhantes, do qual é regente, e está em atividade há três anos e meio, sendo ensaiado no Centro de Cultura da Câmara Municipal de Salvador.

A coordenadora do Ceclis, Márcia Araújo, observou que a passeata ocorre todos os anos, já estando incluída nacionalmente no calendário de todas as instituições, associações e escolas que atuam na causa da pessoa surda, engajadas na luta pela legitimação da Libras, pela implantação de escolas bilíngues e pela valorização do mercado de trabalho para o segmento. “O dia 26 é um dia sagrado de luta, então todas as pessoas que estão ligadas a esse movimento já sabem que esse dia está no calendário. Todo mundo comemora esse dia”, declarou.