sábado, 22 de junho de 2013

Um bom VJ requer humildade

Entrevista: Davi Cavalcanti, o VJ Gabiru


“Gabiru, para mim, é uma metáfora de resistência e capacidade de adaptação.”
(Foto: Hugo Gonçalves)
 
Formado em Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Davi Cavalcanti, que atende artisticamente por VJ Gabiru, trabalha com edição de vídeo e computação gráfica. Nesta entrevista, o artista multimídia traça sua trajetória, explana as metodologias empregadas por ele e seus colegas de ofício, a presente situação dessa profissão em solo baiano e as características que um ótimo criador de fatos imagéticos e sonoros deve carregar ao planificar e exibir suas performances que emanam da articulação entre o áudio e o vídeo.
 
É explicando a origem do seu apelido que o multiartista inicia a conversação.
 
VJ Gabiru – Foi um amigo, que é de Pernambuco, e nós, durante muito tempo, fizemos muitos trabalhos de artes plásticas em parceria. Então, a gente falava muito: “Vai, gabiru! Vem, gabiru!”; a gente chamava o outro de Gabiru. Só que Gabiru vem do nome gabiru, que é aquele que vem de outras cidades, e gabiru é nordestino em alguns lugares do Sudeste. Gabiru, para mim, é uma metáfora de resistência e capacidade de adaptação.
 
O fato de ser VJ, para ele, veio em decorrência das atividades que vinha realizando em sua área.
 
VJ Gabiru – Primeiro, consequência da minha experiência em Comunicação, consequência da minha atividade como artista plástico, consequência de quem trabalha e trabalhou com a área de audiovisual. É uma convergência.
 
Assim como todos os outros colegas de profissão, Gabiru executa vídeos, vinhetas, criações gráficas e performances.
 
VJ Gabiru – Normalmente faço performances de VJ ou me interesso em video mapping, como encomenda.
 
Ele diz ainda quais são os procedimentos técnicos dos quais os VJs se utilizam.
 
VJ Gabiru – Eu acho que vai todo tipo de técnica no tocante à imagem. Já conheci VJs que trabalhavam muito com ilustração, com desenhos; outros que misturavam pintura com projetos de computador. Portanto, a técnica, na verdade, depende do trabalho, ou da encomenda, o que você quer fazer.
 
O VJing foi introduzido em Salvador em meados dos anos 2000, com sete ou oito artistas. Gabiru conta as situações posterior e atual dessa prática na Bahia.
 
VJ Gabiru – Posso dizer que diminuiu o número de VJs a princípio em Salvador. No entanto, acho que algumas cidades do estado, como Cachoeira, São Félix, Feira de Santana, Ilhéus e Valença, são motivadas pelos editais do governo que desde 2008 vêm fazendo propostas com a população e grupos junto com oficinas. Depois, surgiram cursos da Universidade (Federal) do Recôncavo (a UFRB), que acho que abriu e está formando outra turma de VJs com experiência acadêmica, com professores de arte. Em breve, vão ter muito mais (turmas).
 
Segundo o artista, o VJ não necessita de nenhuma qualificação, mas exige conhecimentos peculiares.
 
VJ Gabiru – Não depende de nenhum curso formal, mas requer determinados saberes, como aqueles que dizem respeito a computadores. Hoje em dia, penso que é importante ter noção de arte, de história da imagem, uma série de coisas; isso é o que você mais qualifica.  Configuração de software é bobagem; no Youtube (site de compartilhamento de vídeos) você aprende.
 
Para encerrar esta entrevista, ele cita os atributos que um bom VJ deve possuir.
 
VJ Gabiru – Humildade, humildade, humildade, respeito para com o público, com o qual ele está se apresentando sempre, muito respeito, porque você deve pensar cada vez mais no seu trabalho, nas pessoas que vão estar ali assistindo, elas sempre merecem o seu melhor, o seu melhor esforço. Humildade de novo, ter disponibilidade de aprender, de estudar, não estar parado na vida, porque depende de estar lidando com uma profissão. Mas acho que, mais do que isso, é importante para que possa estar aprendendo.
 
Veja, abaixo, a intervenção de video mapping nos casarões históricos da Praça das Artes, Cultura e Memória, no Pelourinho, em 20 de outubro de 2012, uma das realizações que o VJ Gabiru possui em seu currículo de mais de dez anos como artista visual.
 

Sincronia imagem-som

O VJ, trabalho resultante do desdobramento das artes digitais e da ampliação tecnológica, idealiza composições que interagem o visual com o auditivo
 
Intervenções artísticas são criadas, recriadas e exibidas em tempo real
(Foto: Divulgação)
 
Arquiteto de utopias que misturam imagens e sons, o video-jockey cria, modela, manipula, mixa, articula e reconstrói elementos visuais em tempo real, dialogando com elementos que produzam qualquer efeito sonoro. Difundido popularmente pela sigla VJ, ele se utiliza de dispositivos tecnológicos a fim de que suas invenções e intervenções sejam irradiadas em ambientes externos e internos.
 
Os VJs floresceram na conjuntura das artes, dos espetáculos, da cultura underground e da música eletrônica, como artefatos provenientes do desdobramento das artes digitais e também do aprimoramento e da expansão das tecnologias de áudio e vídeo. Foi o que disse o artista plástico, artista multimídia, VJ e videomaker Davi Cavalcanti, mais conhecido pelo apelido Gabiru, um dos mais requisitados do segmento na Bahia.
 
A figura do VJ, embora tendo seu código genético nas discotecas de Nova York nos anos 1970, obteve prestígio, anos mais tarde, ao associá-la com o video-jockey da emissora Music Television (MTV). “O surgimento do VJ tal qual a gente conhece é na década de 1990, mas eu diria que a ideia de VJ surgiu desde o momento em que a gente começou a trabalhar com as imagens industriais: fotografia e cinema”, elucidou.
 
Entre os conceitos exercitados por um VJ, Gabiru privilegia o VJing, “modo de fazer” do profissional, e o video mapping, procedimento no qual ele adapta imagens projetadas em qualquer superfície, além dos mashups, montagens nas quais fusões musicais são postas em prática, veiculadas unicamente pela internet. O multiartista ressaltou que, enquanto um disc-jockey, ou DJ, reproduz músicas, o VJ “toca” as imagens.
 
No entanto, existe, entre as duas funções, um paralelo: para que um VJ seja versátil, compreender e assimilar noções de música e incorporá-las a suas técnicas é inevitável.

“O DJ trabalha na reconstrução da música, a partir da justaposição de outras músicas e elementos sonoros. Com essa mesma lógica, o VJ trabalha na reconstrução de imagens, justapondo sentidos, coisas e grafismos a uma imagem já construída ou a ser construída”, explicou.
 
Por ser multimídia, um VJ emprega todas as ferramentas apropriadas (como o software Motion Dive, acima)
(Imagem: Reprodução)
 
Uso de ferramentas
 
De acordo com Gabiru, um VJ se vale de todos os tipos de ferramentas necessárias para a produção, a edição e a apresentação de imagens, a exemplo dos softwares específicos encontrados em computadores. Todavia, é fundamental, na acepção dele, entender, estudar e fixar os conteúdos básicos inerentes à profissão, porque a técnica, em consonância com outra matéria-prima essencial, a ideia, requer simples compreensão.

Os VJs executam intervenções artísticas múltiplas nas cidades, como instalações, esculturas, projeções em edificações públicas e em monumentos, além de projeções somadas a performances. Entre o VJ e as artes urbanas, há uma relação que, conforme o artista multimídia, é intrínseca e inseparável. “A partir do momento em que as projeções mapeadas começaram a acontecer na cidade, elas partiam para além das telas e da superfície”, disse.
 
Assista, abaixo, a algumas performances de VJs pelo mundo

Otto + Moto Live Performance no Mapping Festival - Genebra, Suíça, 2010. Trata-se de um espetáculo protagonizado pelos multiartistas Otto von Schirach, estadunidense, e Motomichi Nakamura, japonês.



Instalação de vídeo The Missing Link Show - La Gaîté Lyrique, centro de música moderna e artes digitais de Paris, 2012.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Barroso toma posse no Supremo na quarta-feira

Célebre por atuar em temas polêmicos, constitucionalista assumirá vaga que foi ocupada por Ayres Britto, hoje aposentado

Com informações da Agência Estado

Cerimônia de posse do novo ministro do STF ocorrerá às 14:30
(Foto: Mila Cordeiro/Agência A Tarde)
 
Indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF) pela presidente da República, Dilma Rousseff (PT), o advogado constitucionalista Luís Roberto Barroso, notório por estar envolvido em assuntos polêmicos, será empossado na próxima quarta-feira (26), às 14:30, no edifício-sede do órgão, em Brasília.

Barroso assumirá a cadeira vacante desde novembro do ano passado, quando o ministro Carlos Ayres Britto, que também era presidente do STF, se aposentou da magistratura ao completar 70 anos. Aprovada no dia 5 pelo Senado, com 59 votos a 6, a nomeação do décimo primeiro membro da Corte teve seu decreto sancionado por Dilma e pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e publicado no Diário Oficial da União dois dias depois.

A solenidade de posse, conforme a mais alta instância judiciária brasileira, é protocolar e terá início com a execução do Hino Nacional, para que em seguida o novo ministro seja conduzido ao plenário pelo decano da Suprema Corte, Celso de Mello, e pelo membro mais recente, Teori Zavascki.

Posteriormente, será prestado o compromisso de Barroso como membro do STF e assinado o termo e o livro de posse. Autoridades dos três poderes federais - Executivo, Legislativo e Judiciário - e membros de entidades representativas da sociedade confirmaram presença na cerimônia, além de amigos e parentes do futuro integrante do Supremo.

Nomeação foi a quarta de Dilma

Natural de Vassouras, no interior do estado do Rio de Janeiro, Luís Roberto Barroso, 55 anos, é casado e pai de um casal de filhos. Após as indicações de Luiz Fux, Rosa Weber e Teori Zavascki, o constitucionalista torna-se o quarto ministro da Suprema Corte nomeado no governo Dilma Rousseff.

Ganhou projeção no próprio STF como mediador em processos de temas contraditórios, como união homoafetiva, pesquisa com células-tronco embrionárias e aborto de fetos anencefálicos. Também defendeu a extradição do ex-ativista italiano Cesare Battisti, decidida no plenário do tribunal em 2011.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Tatuagem em Salvador: um breve panorama da arte corporal na capital baiana

Hugo Gonçalves e Luiz Oliveira Filho

Artigo escrito em 21 de dezembro de 2012 para o blog Minha Tattoo Bahia
 
Desenho de uma borboleta tatuada na nuca
(Foto: Divulgação)
 
A história da tatuagem na cidade de Salvador muitas vezes se confunde com a própria vinda dessa manifestação artística para o país, que no final da década de 1950 aportou em terras brasileiras na cidade de Santos, no litoral de São Paulo, pelas mãos do artista dinamarquês Knut Harald Likke Gregersen, conhecido popularmente como Lucky Tattoo.
 
Quase dez anos mais tarde, outros artistas estrangeiros também contribuíram para a difusão da tatuagem em Salvador, quando a trouxeram para uma sociedade baiana ainda em formação de conceitos, paradigmas e estereótipos a respeito da arte de pintar a pele. O famoso tatuador soteropolitano Luís Carlos Carvalho, o Bingha, teve sua primeira tatuagem elaborada por um coreano em meados da década de 1970, que foi uma flor em forma de tebori, uma forma japonesa de tatuar artesanalmente.
 
Alguns anos antes de Bingha ganhar sua primeira tatuagem, os brasileiros presenciavam uma instabilidade política na gestão do então presidente João Goulart (1918-1976), em 1964, quando os militares deram um golpe de Estado que pôs fim ao governo civil no Brasil. Nesse contexto lamentável, o novo regime impôs ao país uma violenta censura contra veículos de comunicação, intelectuais e artistas – músicos, atores, dramaturgos, escritores, cineastas e artistas plásticos –, implicando uma série de cortes em vários segmentos da arte e da cultura popular brasileira.
 
A tatuagem, que pouco tempo havia desembarcado de países do exterior, foi igualmente sufocada pela forte opressão e pela ignorância outorgadas pelo regime ditatorial, que perdurou por 21 anos. A canção Tatuagem, de autoria de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, composta em 1973 para o espetáculo teatral Calabar, o elogio da traição, escrito pelos próprios autores, foi censurada e, apenas sete anos mais tarde, em 1980, foi liberada.
 
Mesmo com a forte opressão, a tatuagem, embora fosse contraditória, não parou de avançar em solo soteropolitano. Se por um lado era possível observar um claro preconceito por parte da sociedade baiana, que julgava como marginais aquelas pessoas que se submetiam à pintura na pele, uma forte corrente de união crescia entre os amantes da arte de se tatuar. De amadores, os praticantes da tatuagem passaram a desenvolver suas técnicas com o auxílio de experientes artistas que chegavam à cidade ensinando novas habilidades, abordagens e procedimentos de higiene.
 
Os primeiros estúdios de tatuagem em Salvador surgiram no final da década de 1970. Um deles foi o Studio Tatuagem do Sol, que estava localizado no bairro da Barra e contava com o talento de três artistas que mais tarde viriam a ser considerados expoentes da arte na Bahia: Jorge Magha, Bingha e Toni. Segundo Bingha, que foi um dos sócios, o estúdio alcançou sucesso, chegando a recepcionar celebridades como o cantor e compositor Caetano Veloso, mas em 1985 a sociedade foi desfeita pelos parceiros.
 
Uma parcela dos artistas baianos, sobretudo músicos de rock e de axé, aderiu à moda das tatuagens, como o cantor Saulo Fernandes, ex-vocalista da banda Eva. Entre os desenhos que Saulo possui em seu corpo, a mais expressiva é uma imagem de seu filho mais velho, João Lucas, marcada em seu braço esquerdo, simbolizando o afeto que o cantor tem por ele.
 
Mesmo com o crescente número de pessoas que buscam se tatuar todos os anos, ainda existem discriminações e preconceitos por toda a cidade. Embora seja nítida a atual percepção social a respeito da tatuagem, quando se trata da busca por emprego, a maioria dos entrevistados garante esconder suas tatuagens pelo fato de as empresas manterem uma filosofia e um padrão estético conservadores.
 
Já que na capital baiana o preconceito racial apresenta acentuada visibilidade, muitos tatuadores e tatuados de matriz afrodescendente são passíveis disso. Os tatuadores dizem que em cada época existem estilos e técnicas de tatuagem que se sobressaem e se tornam mais populares e relevantes em termos financeiros. Pessoas muitas vezes tendem a seguir um fluxo de pensamento coletivo que as faz escolher determinados elementos para sua tatuagem.
 
Ao longo do tempo, os tatuadores de Salvador estão se aperfeiçoando no mercado. Novas técnicas estão sendo apresentadas ao público soteropolitano, como as tatuagens maoris. Originárias da Polinésia, elas são tribais e foram bastante aceitas em âmbito local. Atualmente, a novidade é a tatuagem old school – em português, velha escola –, que consiste na prática da tatuagem bem colorida, com cores bem vibrantes e profundas.
 
Mas, infelizmente, os tatuadores que atuam em Salvador são forçados a se deslocar de sua própria cidade – e até do Brasil – em busca de novas técnicas, metodologias e inovações no setor. Regularmente, eles comparecem a convenções internacionais, nas quais tatuadores de diferentes países se congregam, fazendo com que os profissionais realizem intercâmbios entre várias culturas e divulguem novidades do ramo da tatuagem.

A difusão da tatuagem nas tribos

Artigo escrito em 8 de novembro de 2012 para o blog Minha Tattoo Bahia
 
 
A tatuagem, uma tradição milenar que vem se atualizando, é definida como uma intervenção plástica, de caráter invasivo e penetrante, realizada na superfície do corpo humano. Ela consiste na pigmentação da pele (dermopigmentação) através da introdução de substâncias corantes por meio de agulhas ou objetos similares.
 
Os profissionais que lidam com a técnica, os tatuadores, introduzem o pigmento na derme, a segunda camada da pele, utilizando ossos e dentes de animais, fragmentos de madeira ou a avançada máquina elétrica. Desenvolvida para certas partes do corpo, a tatuagem apresenta algumas exceções. Portanto, vários tatuadores criam estilos peculiares.
 
Muitas tribos se tatuaram com intenções distintas, como identificar momentos mais importantes da vida de seus membros. Um exemplo disso aconteceu em algumas regiões da Ásia, onde as mulheres se tatuaram com tinta à base de henna ao selarem seus matrimônios. Com a matéria-prima, faziam-se, no corpo da noiva, desenhos nos pés e nas mãos, como se estivessem cobertos por um tecido de renda.
 
Além disso, a tatuagem também simboliza um rito de passagem para uma nova fase da vida de uma pessoa. Esses rituais de iniciação continuam sendo praticados em regiões distintas do planeta. Antigamente, as pessoas se tatuavam em ocasiões específicas, como luto e até conflitos, com o objetivo de assustar os inimigos.
 
O primeiro indivíduo tatuado que se tem notícia trata-se de uma múmia descoberta em 1991, na região dos Alpes, entre a Itália e a Áustria. Denominada Ötzi, o “homem do gelo”, ela viveu há mais de 5 mil anos e tinha 57 tatuagens espalhadas pelo corpo.
 
Primeiro homem tatuado foi Ötzi, uma múmia descoberta nos Alpes
(Foto: Divulgação)
 
A presença da tatuagem no Ocidente teve seu marco inaugural no século XVIII, com o choque cultural entre os habitantes das ilhas do Pacífico Sul, que dominavam a técnica, e os marinheiros europeus, em particular os britânicos. A partir deste contato, a arte corporal renasceu no Velho Continente, após um período de quase extinção durante a Idade Média.
 
Nos séculos XIX e XX, vários tatuadores ocidentais haviam sido marinheiros que, ao se aposentarem, permaneceram nas cidades portuárias desenhando os corpos. A partir daí, a tatuagem se popularizou nas sociedades ocidentais. Outras consequências do “renascimento” da tatuagem no continente europeu foram o circo e a exibição do corpo tatuado para fins de entretenimento.
 
Todavia, foram os marinheiros que contribuíram para o renascimento da tatuagem. Eles não somente se tatuaram, mas também foram instruídos na técnica, transformando-a em uma profissão. A tatuagem, entre os marinheiros, acabou se transformando em parte de sua identidade cultural.
 
O grupo mais associado à tatuagem, segundo o médico-legista italiano Cesare Lombroso (1835-1909), foram os criminosos. Portanto, ela passou a ser identificada como um estigma de criminalidade, fazendo com que o corpo desempenhasse um papel fundamental na resistência a sistemas policiais e de exercício de autoridade.
 
Em 1891, o estadunidense Samuel O’Reilly inventou a máquina elétrica de tatuar, também chamada tatuógrafo. Por meio dessa ferramenta, muitas agulhas podem agir ao mesmo tempo, transferindo com velocidade o desenho para a pele. O ofício de tatuador se consolidou pela difusão mundial da tatuagem e pela praticidade de executá-la mecanicamente, dissociando-a do estigma marginal.
 
Mesmo após o advento da máquina elétrica, os mecanismos tradicionais de tatuar ainda são empregados em diversas tribos. Entre eles podemos citar as agulhas, sustentadas por hastes de espessuras e tamanhos sortidos. Os pigmentos, que podem ser misturados entre si formando novas tonalidades, variam conforme os aspectos culturais de um povo.
 
 
A tatuagem foi exportada para o Brasil em 20 de julho de 1959, no porto de Santos, em São Paulo, por iniciativa de um dinamarquês conhecido como “Lucky Tattoo”. Em notícia publicada no jornal O Globo de 4 dezembro de 1975, Lucky era considerado o único tatuador profissional em toda a América Latina. O precursor da arte corporal no país é respeitado e continua uma lenda entre seus discípulos.
 
No entanto, João do Rio (1881-1921) havia descrito, no alvorecer do século passado, a indústria da tatuagem na cidade do Rio de Janeiro. Em seus testemunhos, o jornalista retratava que meninos em bandos, usando agulhas de costura e tinta nanquim, circulavam pelas ruas do cais do porto da então capital do país prestando serviços a prostitutas, marinheiros e trabalhadores das camadas populares, entre eles imigrantes portugueses.
 
Várias tribos fazem da tatuagem um signo de pertinência social na contemporaneidade, pois o sujeito vincula sua identidade ao desenho que sua pele ostenta. No caso de um membro de uma tribo urbana, por exemplo, a tatuagem representa a manutenção dos valores de seu grupo e um juramento de fidelidade a ele.

Coletivamente, ela passa de signo a condição de rito de iniciação sacramentado pela tribo, como ocorre no movimento straight edge, um grupo que segue a doutrina vegetarianista e a prática sexual reprodutiva, entre outros dogmas. Seus integrantes, denominados straight edges, têm como rito iniciativo uma tatuagem de uma letra X nas costas de suas mãos.
 
Tatuagem de uma letra X, símbolo do movimento straight edge
(Foto: Divulgação)
 
As tribos propõem que suas tradições sejam respeitadas ou pelo menos reconhecidas. Para que elas possam ser identificadas, também se faz necessária a identificação dos signos de pertinência. O reconhecimento de um indivíduo pela tatuagem, para um straight edge, possibilita o reconhecimento de seu discurso e de sua subjetividade.
 
Mais de mil anos depois, a tatuagem se manifesta em todas as tribos e todos os segmentos sociais sem distinções, graças a uma volumosa disponibilidade de informações sobre essa fantástica arte que penetra no corpo. Suas temáticas, estéticas e colorações se traduzem numa infinidade e são variáveis conforme as preferências de cada indivíduo que a ostenta.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Vídeo do projeto de inclusão - EPTran

O vídeo que iremos assistir a seguir trata-se de uma peça institucional da Escola Pública de Trânsito (EPTran), única instituição educacional mantida por um governo no Brasil que prepara os condutores a serem habilitados, relacionada ao projeto de inclusão dos deficientes auditivos ao acesso à primeira habilitação.

Elaborado para o Prêmio de Boas Práticas da Bahia 2012, no qual a iniciativa, pioneira no país, faturou a terceira colocação, o filme, com duração de 3 minutos, apresenta mensagens positivas na forma de depoimentos reais.

Concederam depoimentos os condutores Joanderson Oliveira e Cláudio Souza, beneficiados pelo projeto, a diretora da EPTran, Ana Cristina Regueira, a intérprete de língua brasileira de sinais (Libras), Ana Paula Sacramento e o instrutor Paulo Henrique. Todos eles reafirmaram a importância da ação, que propicia aos surdos a superação de obstáculos.

Assista ao vídeo abaixo:



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Andreia vai à luta pelo volante

Mulher que nasceu surda se prepara para obter sua carteira de motorista nas aulas da EPTran
 
Andreia afirma que carteira de habilitação representa um grande passo para a autonomia
(Foto: Hugo Gonçalves)
 
Na aula de Mecânica Básica, ela pode compreender como funciona um veículo
(Foto: Hugo Gonçalves)
 
Discriminados no passado, os portadores de necessidades especiais, como os deficientes físicos, mentais, visuais e auditivos, já sabem conduzir um veículo automotor. Convivendo com a surdez desde seu nascimento, Andreia Medeiros Pimentel dos Santos está se preparando, graças às noções de direção, para manobrar um carro.
 
Andreia, que trabalha na Empresa Baiana de Águas e Saneamento S. A. (Embasa), no setor de tecnologia da informação, assistiu, no meio de dezenas de ouvintes, à aula da disciplina Mecânica Básica, ministrada pelo professor Edmilson Farias, nesta segunda-feira (17), na Escola Pública de Trânsito (EPTran), anexo do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-BA), na região do Iguatemi.
 
O professor Edmilson (à esquerda) ministrou a aula que a surda assistiu
(Foto: Hugo Gonçalves)
 
Graduada em língua brasileira de sinais (Libras) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em ensino de Libras pela Faculdade Dom Pedro II, em Salvador, ela se comunica com os gestos desde criança. Como não existia uma escola adaptada para surdos, ela foi obrigada a estudar numa escola para ouvintes.
 
"Antigamente, as pessoas consideravam os surdos incapazes, e não tinham o acesso nem o direito de tirar a carteira de motorista", recorda. Na opinião de Andreia, que foi acompanhada por uma intérprete no momento da aula, tirar a carteira de habilitação significa um passo muito grande para adquirir sua autonomia.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Melhores momentos da palestra sobre sexualidade

Confira, na galeria a seguir, a cobertura fotográfica da palestra "Amor e sexo: educação sexual para comunidade de jovens surdos", realizada no último domingo (16), no auditório da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato (BIML), no bairro de Nazaré.

A iniciativa do projeto partiu de uma parceria do Centro de Estudos Culturais Linguísticos Surdos (Ceclis), presidido pelo professor Milton Bezerra Filho, que foi um dos palestrantes, com a biblioteca.

Grande parte das fotos que ilustram esta galeria foi feita por Hugo Gonçalves, porém a psicóloga Márcia Araújo, coordenadora do Núcleo de Saúde do Surdo do Ceclis, captou algumas imagens.
 
Parte 1 - Palestra no auditório
 














 
 






 
 
 


 
Parte 2 - Fila na recepção para os participantes receberem o certificado



 
Parte 3 - Área externa da biblioteca