Bahia de todos os ritmos

Caracterizado pela extraordinária abundância de sons, o axé definiu sua forma e seu conteúdo com a ascensão nacional de um jovem multi-instrumentista

3 de outubro de 2011

Um majestoso mercado que dinamiza a ritmicidade surgida na Bahia. Além de atrair multidões, ele engrandece os negócios no setor de entretenimento em todas as instâncias. Quebrou paradigmas e percorreu fronteiras, indo mais longe do seu legítimo berço e reduto. Dos estúdios, onde músicos e produtores inventam, ensaiam e registram timbres, acordes, melodias e harmonias em canções a serem lançadas nos prelúdios de cada verão, até os circuitos do escaldante Carnaval de Salvador, emana uma imensa convergência de gêneros inserida no panorama da Música Popular Brasileira.

Resultado da aparente incorporação e absorção de outras modalidades preexistentes – samba, frevo, maracatu, reggae, rock, pop e até música clássica –, aliados aos batuques primitivos dos instrumentos africanos de percussão e das tendências provenientes do Caribe, com ênfase na salsa e no merengue, o caldeirão sonoro ao qual se denomina axé music, mais conhecido simplesmente por axé, passou a adquirir estética e conteúdo definidos em meados da década de 1980, mais precisamente em 1985.

O período balizou a consagração de um cantor, compositor e multi-instrumentista de talento precoce: Luiz Caldas, então com 22 anos de idade. Seu grande êxito pioneiro: a antológica Fricote (Nega do cabelo duro), dele e de Paulinho Camafeu. Apesar de a letra ser ambígua, abordando o estereótipo de uma negra que não gosta de pentear seu cabelo, a canção contribuiu maciçamente para agilizar a penetração da nova sonoridade baiana em todo o Brasil, em especial no eixo Rio-São Paulo. Portanto, o sucesso imediato de Fricote obrigou o prodígio Luiz a participar assiduamente de programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo, comandado por Abelardo Barbosa (1917-1988), o Velho Guerreiro.

Controvérsia

É controvertida a origem do termo axé music. Segundo o roqueiro e jornalista Hélio Rocha, em depoimento à Tribuna da Bahia, em fevereiro de 2010, a expressão foi citada pela primeira vez em uma matéria acerca do show de estreia do grupo de rock Camisa de Vênus, liderado pelo locutor e músico Marcelo Nova, em Salvador, publicada no periódico em 1982. “Marcelo Nova foi quem criou a expressão axé music, em seu programa de rádio Rock Special (transmitido pela extinta Aratu FM), como forma de gozar com a galera que estava fora do movimento do rock. O termo só foi popularizado na segunda metade da década, mas o crédito pertence a Marcelo”, diz Rocha.

No entanto, em 1987, o jornalista Hagamenon Brito, também de postura roqueira e à época crítico musical do jornal A Tarde (hoje trabalha no rival Correio*) usou a designação axé music com o objetivo de se referir pejorativamente à pretensão dos artistas locais a adquirirem prestígio no exterior, daí a associação do vocábulo inglês music (música) ao termo africano axé, que significa força. “Na verdade, o termo axé music foi criado originalmente para designar uma cena musical e não um gênero”, elucida Hagamenon em entrevista ao jornal Tribuna do Norte, de Natal, em janeiro de 2010. “Inicialmente rejeitado em Salvador pelos artistas da cena, o termo passou a ser usado também pela mídia do Rio e de São Paulo e aí pegou geral”, pontua o crítico.

A abundante musicalidade delineada por Luiz Caldas no LP Magia, datado do final de 1985, disco do qual Fricote era o carro-chefe, fora esquematizada cinco anos antes. “Foi Fricote que abriu as portas, para o Brasil, deste tipo de música híbrida que eu já fazia no trio elétrico Tapajós, desde 1979. Basta olhar os créditos do LP Ave Caetano, lançado em 1980, que as pessoas vão encontrar duas canções de minha autoria: Oxumalá e Tapafrevo. E é Oxumalá a primeira canção que apresento a axé music para os baianos e para o mundo”, conta Luiz em artigo publicado em A Tarde, em 18 de novembro de 2009, reafirmando o título de genitor da sonoridade.

Foi ainda no legendário Tapajós que o “pai” do axé fundou e capitaneou a banda Acordes Verdes. Junto ao Tapajós, Luiz Caldas registrou ainda mais dois álbuns, Jubileu de prata (1981) e Cristal liso (1982). “Quando decidi seguir a carreira-solo, já estava atuando na gravadora WR e tinha deixado o Tapajós. Gravei o primeiro disco individual em 1983 e, em seguida, concebi o disco Magia, que vendeu mais de 380 mil cópias”, recorda. Quando Luiz (guitarra e voz) gravou aquele álbum, ele estava acompanhado da célebre formação do Acordes Verdes, a saber: Carlinhos Marques (baixo e vocal), Alfredo Moura (teclados), Cesinha (bateria), Carlinhos Brown e Tony Mola (percussão), Paulinho Caldas e Silvinha Torres (backing vocal).

Mercado promissor

Em virtude do visível reconhecimento do então fenômeno Luiz Caldas e de sua mistura tropical de estilos, uma nova safra de cantores e intérpretes se prosperou mercadologicamente nos anos subsequentes, alcançando projeção em escala nacional. “Vendo que a música que eu fazia gerava muita grana, as gravadoras passaram a investir em novos artistas baianos. Todas queriam algo parecido. A estratégia deu certo. Os que vieram seguindo os meus passos não são criadores, são seguidores. Está datado. É fato. É história”, certifica Luiz em A Tarde.

Logo uma constelação amplificada de astros baianos ascendeu e pontificou no mercado fonográfico brasileiro. Projetaram no cenário nacional e internacional Chiclete com Banana, Sarajane, Gerônimo, Cid Guerreiro, Cheiro de Amor, Banda Reflexu’s, Ricardo Chaves, Margareth Menezes, Eva, Banda Mel, Asa de Águia, Banda Beijo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Timbalada, Jammil e Uma Noites, Alexandre Peixe, Babado Novo, Cláudia Leitte, A Zorra, Negra Cor, Tomate, dentre outros, sendo que alguns deles não estão conseguindo repetir igual sucesso como foi antigamente devido, entre outros fatores, ao anonimato e à ausência de carisma.

De norte a sul, de leste a oeste, em todos os quatro cantos do país e do planeta se ouve simultaneamente a genuína ritmicidade gestada na sedutora Salvador, cidade notabilizada culturalmente também em razão do seu fantástico sincretismo religioso. Por ser rotulada como celeiro musical, a Bahia exporta sua ginga para outros estados brasileiros e para diversos países em todos os cinco continentes por meio da realização de dezenas de espetáculos de dimensão inegavelmente magnífica. O axé, por conseguinte, já se transformou em irresistível gênero rítmico dirigido à universalidade.

“A Bahia é um dos maiores celeiros musicais do mundo. Nós somos o ‘farol’ do mundo das artes, somos o maior liquidificador rítmico do planeta Terra, além de estarmos estratégica e geograficamente situados no ‘coração do Brasil’”, alegra-se o empresário e produtor Wesley Rangel, dono do estúdio WR, um dos mais importantes do Norte/Nordeste e laboratório de miscelâneas rítmicas que originaram o axé, ao portal Salvador com H em fevereiro deste ano. “A miscigenação de nosso povo, as influências multinacionais que formam nosso amálgama cultural e a força nativa de nossa cultura indígena nos tornam os promotores da cultura do terceiro milênio”, completa Rangel.

“Axé in Rio”

O axé garantiu lugar cativo no Palco Mundo do Rock in Rio, em apresentações adaptadas para uma possível plateia roqueira. A loira Cláudia Leitte inaugurou a primeira noite do festival, em 23 de setembro, fazendo seu show “ultraproduzido”, conforme analisou o enviado especial Marcus Preto, da Folha de S. Paulo. Claudia realizou um espetáculo “ultraproduzido”, porque ele se valeu de caprichosos efeitos especiais, pirotecnia e coreografias performáticas. Ela fez, realmente, uma excelente apresentação.

Na semana seguinte, na noite da última sexta-feira, 30 de setembro, foi a vez de Ivete Sangalo tocar na Cidade do Rock. Quando a rainha absoluta do axé se apresentou, ela incluiu em seu repertório duas baladas em inglês, a fim de adequá-lo ao público presente no Rock in Rio, majoritariamente roqueiro. Ivete ainda se aventurou em tocar piano e violão. “Pop é pop, rock é rock, axé é axé. A gente se mistura inconscientemente. Mas, se um festival impuser ao público um único segmento, nunca vai conseguir fazer 300 dias de festa, todos cheios de gente", afirma Ivete à Folha uma semana antes de a morena se apresentar no evento.

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