Jean Wyllys explica a atual situação homossexual no Brasil

Deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro, jornalista, escritor e professor baiano realizou na Unijorge palestra inaugural do projeto interdisciplinar “Homofobia”, que já está sendo executado por estudantes de Comunicação do centro universitário

Discutir a homossexualidade e a questão da homofobia na esfera sociopolítica brasileira atual. Esse foi o tema da palestra “A política brasileira e o movimento LGBTT”, ministrada pelo jornalista e professor baiano Jean Wyllys, deputado federal (PSOL-RJ), na última segunda-feira (5), no Auditório Zélia Gattai, no Campus Paralela do Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge). A atividade inaugurou oficialmente os trabalhos do projeto interdisciplinar “Homofobia”, organizado pelos cursos de Comunicação Social – Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Produção Audiovisual – da instituição de ensino superior.

Na iniciativa conjunta, que consiste numa abordagem multidisciplinar problematizadora, inerente ao objeto de estudo, os estudantes dos cursos participantes estão elaborando produtos midiáticos que objetivam a denúncia e o combate aos gestos homofóbicos. A palestra inaugural foi declarada aberta por seus idealizadores, a coordenadora dos cursos de Comunicação Social da Unijorge, Patrícia Barros Moraes, e os professores Sílvio Benevides e Max Bittencourt.

Em meio a uma plateia heterogênea, composta por discentes e docentes de Comunicação, Psicologia e Direito da Unijorge e de outras instituições acadêmicas, Patrícia pontuou a representatividade de uma pessoa tão exemplar como Jean Wyllys, que também é escritor, com três livros publicados, em seu viés ativista na luta contra a intolerância sexual.

“A formação de um bom professor vai além de um aparato técnico-científico que a gente tem em sala de aula”, explicou a coordenadora, considerada a “mola propulsora” na concepção do esquema, nos dizeres de Sílvio. Além de ser um tema que está em evidência na contemporaneidade, com a intenção de espelhar sobre o papel de um espaço mais justo, a homofobia é um problema de direitos humanos devido ao desrespeito a eles.

Conforme Sílvio, sociólogo graduado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), a discriminação obscena em detrimento das lésbicas, dos gays, dos bissexuais, dos travestis e dos transgêneros (LGBTTs) é uma questão da própria humanidade. Antes de passar o microfone para Jean, Max Bittencourt recordou o assassinato do estudante de Psicologia da Unijorge, Isaac Souza Matos, ocorrido em 11 de julho, no bairro do Corsário, na orla marítima de Salvador, em função da homofobia. Foi pensando nesse cruel homicídio que, de acordo com Max, definiu-se o assunto para desenvolver o projeto interdisciplinar.

Retorno à casa

Quando Jean Wyllys começou a palestrar, ele parabenizou os idealizadores pela gratificante oportunidade de retorno à instituição, onde foi professor do curso de Jornalismo antes de se consagrar nacionalmente por sua vitória na quinta edição do reality show Big Brother Brasil, da TV Globo, em 2005. No centro universitário – na época batizado de Faculdades Jorge Amado – onde o evento foi realizado, o hoje parlamentar, homossexual assumido, auxiliou na elaboração de ações midiáticas comunitárias, como o projeto Arte e Cidadania.

As universidades e as faculdades, na visão do palestrante, enfrentam o mercantilismo e admitem a produção e a reprodução do conhecimento, embora desconstruíssem e não reafirmassem o senso comum. “A política e a universidade são espaços de discernimento, e não de preconceito”, ponderou. Para ele, a ausência de conhecimento prolifera estereótipos no ambiente acadêmico, sendo que a homofobia é um deles.

Partindo do pressuposto de que os atos discriminatórios perversos contra indivíduos homossexuais e congêneres surgiram no âmbito cultural, o deputado recuou na história da humanidade, ao discorrer a construção da mentalidade no Ocidente. Sociedades antigas, como a judaica e a egípcia, viviam sob o jugo do machismo, enaltecendo a virilidade masculina. Séculos após o Império Romano e seu consequente esfacelamento em razão das invasões bárbaras medievais, o primeiro governador-geral do Brasil, Thomé de Souza, empilhou cadáveres indígenas. “Essa mentalidade, esse tabu, essa repressão sexual chega até nós, nesses 500 anos de Brasil”, afirmou Jean.

Um dos fatores modificadores da constituição da cultura brasileira, para ele, é o idioma português. “Quando a língua chega profundamente em nós, ela traz os valores e a mentalidade que estão sendo materializados”, explicou. Jean Wyllys ainda distinguiu natureza e cultura, exemplificando o caso clássico, nos seres humanos, da irregularidade dentária. Enquanto os dentes já nascem tortos, a cultura recorre a um artifício produzido pelo homem que os corrige, o aparelho ortodôntico. De modo idêntico, as sexualidades estão atravessadas de cultura.

Questionamentos

No momento posterior ao término da palestra, a coordenadora Patrícia Barros Moraes deliberou que o público fizesse suas intervenções, questionando a Jean acerca de subtemas interligados ao assunto focalizado. Dentre os subtemas explicitados de grande importância naquela fase estava a educação política, sugerido pela estudante do 6º Semestre de Jornalismo da Unijorge, Suiá Silva, natural de Alagoinhas e conterrânea do palestrante.

Jean Wyllys apontou que, na humanidade contemporânea, há uma convivência equivocada de contradições inimagináveis e inadmissíveis, como o fato de as pessoas coabitarem com o obscurantismo e a desinformação, no caso dos políticos. “Muita gente critica, por exemplo, a eleição do deputado Tiririca, por causa do senso comum. Você sabe o que faz um deputado? Não sei”, afirmou, parafraseando seu colega de plenário Tiririca (PR-SP), o deputado federal mais votado do país no pleito de 2010. Outro equívoco justificador da falta de educação política é a confusão do papel do prefeito, chefe do Poder Executivo municipal, com o do deputado estadual.

Por ser conhecida como Constituição Cidadã, a atual Carta Magna federal, promulgada em 1988, delineia, entre outros aspectos sociais, o princípio da laicidade do Estado, não sendo atrelado a nenhuma denominação religiosa e permitindo a pluralidade e a autonomia de credo. Entretanto, existem potencialidades eclesiásticas obscurantistas e fundamentalistas que têm por intuito ameaçar a liberdade política. Tais forças emergiram ao cenário do poder brasileiro em função do dinheiro.

Apresentado pela ex-deputada federal Iara Bernardi (PT-SP), o Projeto de Lei Complementar 122 (PLC 122/2006), aprovado na Câmara em dezembro de 2006, cuja polêmica aprovação foi evidenciada na palestra, reivindica a criminalização da homofobia no Brasil. Passou, em seguida, para o Senado, onde foi arquivado numa sessão turbulenta da Comissão de Direitos Humanos por pressão da bancada evangélica, todavia foi desarquivado graças à atuação da senadora Marta Suplicy (PT-SP) como relatora da proposta na comissão.

O deputado Jean Wyllys, defensor convicto dos direitos da população homossexual no país, coordena, ao lado de Marta, a Frente Parlamentar pela Cidadania LGBT, e integra as comissões temáticas de Direitos Humanos e de Finanças e Tributação da Câmara. “O melhor caminho para enfrentar esses preconceitos é levar a aversão que há em nós. Eu, como homossexual assumido, sou uma pessoa mais vulnerável”, encoraja-se Jean.

Em relação à Lei Áurea, sancionada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, ele ressaltou que, a despeito de a lei não inibir a discriminação racial e outros estereótipos, ela foi o prelúdio para o crescimento dos avanços sociais. Os negros, mesmo após a sanção da Lei Áurea, foram severamente expulsos do mercado de trabalho, marginalizados e oprimidos, sem nenhuma perspectiva de ascensão na sociedade.

Kit anti-homofóbico

Uma das medidas paradoxais propostas pelo governo da presidente Dilma Rousseff (PT) é o kit anti-homofobia, elaborado pelo Ministério da Educação em parceria com a sociedade civil para diagnosticar o bullying homofóbico nas escolas da rede pública das instâncias estadual e municipal. De acordo com Jean, o kit, cuja adoção foi vetada em maio pela própria presidente, seria implantado devido ao fato de que “a homofobia é uma das causas da evasão escolar infanto-juvenil”, e consistiria na confecção e distribuição de vídeos curtos, boletins informativos e cartilhas educativas para escolas onde houvessem ocorrências intrinsecamente relacionadas à homofobia.

Segundo o parlamentar, a construção da cidadania e dos valores humanísticos se inicia na escola. O orgulho gay parte, na acepção dele, do princípio da equidade. “Um grupo que historicamente tem privilégios não evoca o princípio da igualdade formal”, elucida. Após Patrícia, uma das idealizadoras da palestra, declarar o encerramento definitivo do evento, Jean agradeceu a presença dos estudantes e professores pelo momento oportuno de explanação do tema abordado. E a plateia, conscientizada, foi ovacionada com coragem.

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