terça-feira, 30 de novembro de 2010

Primeiras atrações são confirmadas para o Festival de Verão

De 2 a 5 de fevereiro, maior festival anual de música do Brasil, no Parque de Exposições, terá como proposta a mistura de tendências rítmicas


Faltando 64 dias para o início do Festival de Verão Salvador de 2011, foram anunciadas, nesta terça-feira, suas primeiras atrações. A décima terceira edição do maior festival anual de música do Brasil, promovido pela Icontent Conteúdo e Entretenimento, empresa da Rede Bahia, acontecerá entre os dias 2 e 5 de fevereiro, no Parque de Exposições. O evento tem como peculiaridade a miscelânea de gêneros, estilos e acordes para baianos e turistas. Para a jornalista Aline Caravina, o festival propõe "um caldeirão musical difícil de acontecer em qualquer parte do mundo".

Dezesseis artistas foram confirmados para o palco principal, o 2011, e dentre os baianos, foram convocados nove. Subirão ao Palco 2011 atrações de peso no cenário nacional: os sertanejos universitários Jorge & Mateus e Luan Santana, os grupos de rock Capital Inicial e Jota Quest, a cantora Maria Gadú e o pagodeiro Belo, além da banda emocore Restart, a nova sensação adolescente. As cantoras Ivete Sangalo e Cláudia Leitte, o cantor Tomate e as bandas Psirico, Asa de Águia, Parangolé, A Zorra, Harmonia do Samba e Jammil e Uma Noites já estão garantidas no elenco local do Festival de Verão Salvador.

Para a Concha Acústica Maurício de Nassau, palco anexo batizado em alusão à faculdade homônima, um dos patrocinadores do festival, os organizadores anunciaram alguns nomes que irão tocar no espaço. Merecem destaque, dentre eles, a banda de reggae Planta e Raiz, o grupo roqueiro Detonautas, as cantoras Luíza Possi, Ana Cañas, Márcia Castro e Paula Fernandes e os cantores Otto e Jorge Vercilo. O pagode intensificará sua primazia num palco exclusivo, a Casa do Pagode, onde se apresentarão dezesseis bandas do gênero da Bahia, como Fantasmão, Raghatoni, Oz Bambaz, Black Style, É o Tchan e Guig Guetto.

Salvador é a 3ª maior em população, diz Censo 2010

Capital baiana preserva sua posição no recenseamento do IBGE, ficando atrás de São Paulo e do Rio

Dados do Censo Demográfico 2010 coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e demonstrados nesta segunda-feira, dia 29, reafirmam a permanência de Salvador como a terceira capital mais populosa do Brasil. A capital baiana, de acordo com o recenseamento, possui agora 2.676.606 habitantes, em comparação com o resultado anterior, de 2000, no qual foram contabilizados 2.443.107 moradores.

Salvador continua atrás, dentre as dez capitais brasileiras mais populosas pesquisadas pelo IBGE, apenas das cidades de São Paulo, com 11.244.369 habitantes, e do Rio de Janeiro, onde residem 6.323.037. Nas duas megalópoles somadas, seu percentual demográfico corresponde a aproximadamente 9,21% da população do Brasil.

Após São Paulo, Rio e Salvador, aparecem na lista Brasília (quarta posição - 2.562.963 habitantes), Fortaleza (quinta posição - 2.447.409), Belo Horizonte (sexto lugar - 2.375.444), Manaus (sétimo lugar - 1.802.525) e Curitiba (oitavo lugar - 1.746.896). Com 1.536.924 e 1.409.939 moradores, respectivamente, Recife e Porto Alegre ocupam as duas últimas colocações.

Bahia: quarto mais populoso

Em conformidade com o IBGE, a quantidade de moradores da Bahia cresceu de 13.070.250, em 2000, para 14.021.432, sendo o quarto estado mais populoso do Brasil. A população do país em 2010 contabiliza 190.732.694 habitantes, verificando um acréscimo de 12,3% em relação ao Censo 2000. 160,9 milhões de pessoas, ou 84,35% da quantidade de habitantes brasileiros, estão fixados atualmente em zonas urbanas.

O Censo também diagnosticou que 53,33% da demografia soteropolitana é majoritariamente feminina. A cidade brasileira que possui o maior percentual de mulheres é Santos, no litoral paulista, com 54,25%, e a que detém o maior número de homens é Balbinos, no interior do mesmo estado, com 82,2%.

O Cab e suas plasticidades

De cima para baixo: painel Primeiro Governador da Bahia (1973-1974), de Carybé, em concreto, na fachada da Assembleia Legislativa; painel A Procissão do Bom Jesus dos Navegantes (1974, reconstituído entre 1993-1994), de Carlos Bastos, no plenário da Casa; sequência de três painéis de Carybé (1974), em madeira, na recepção da Secretaria da Fazenda; detalhe de um dos painéis de Juarez Paraíso (1974) na fachada da Secretaria da Agricultura; monumento a Ayrton Senna (2010), de Bel Borba.
(Fotos: Hugo Gonçalves)

Não são apenas os perfeitos vigores da arquitetura e da política que ecoam altivamente na vastíssima superfície do Centro Administrativo da Bahia (Cab), aglomerado de dezenas de construções governamentais erguidas à base da onipresente tríade aço/vidro/concreto às margens de um dos eixos responsáveis pela radical metamorfose urbanística soteropolitana. Grandes mestres das artes plásticas ultramodernas no nosso estado imprimiram profundas, vivazes, finas, arrojadas e indeléveis reminiscências do imaginário e do místico baiano, dando uma invejável musculatura em alguns prédios públicos ali instalados há mais de três décadas. A concomitância equânime e mútua entre as belas artes (o concreto) e o poder (o abstrato), que utopicamente emana do próprio povo, permeia e está inserida numa ousada conjuntura simbólica.

Observando os edifícios do Cab, a ostensiva presença de monumentais painéis e murais confeccionados com primor impetuoso em tintas sobre tela, em madeira talhada e em concreto, e assinados por notáveis artistas plásticos baianos, como Carlos Bastos (1925-2004) e Juarez Paraíso, e aqueles que se ambientaram na Bahia a posteriori, como o argentino naturalizado brasileiro Carybé (1911-1997), norteia o espectro artístico sistematizado no local. A beleza e o capricho dos painéis materializados por eles servem de mérito à perpetuação de seus gloriosos e irresistíveis trabalhos, reconhecidos dentro e fora do nosso território. São, via de regra, ricas formosuras multifacetadas e buriladas com precisão, diversificando desde mosaicos em altos e baixos relevos até pinturas idealizadas em tintas de tonalidades radiantes, cintilantes e vivificantes.

A sede da Assembleia Legislativa, formidavelmente conhecida pelo epíteto de Casa do Povo, colosso piramidal de concreto armado aparente e um dos prédios mais funcionais do conjunto, exibe, na porção central da sua fachada, um outro gigante. Trata-se do sólido painel trapezoidal assinado por Carybé, intitulado Primeiro Governador da Bahia. Executado entre 1973 e 1974, ano da inauguração do prédio, o mural, também em concreto armado, é abundante em informações visuais, retratando em altos e baixos relevos atributos histórico-culturais do povo baiano. As três matrizes étnicas básicas que o formaram – o índio, o negro africano e o branco europeu (português) –, o sincretismo religioso, combinando o Cristianismo com o Candomblé, as caravelas simbolizando o descobrimento do Brasil, a atividade agropecuária e os homens que a exercem não deveriam abster-se no gigante dentro do gigante.

Tendo o painel Primeiro Governador da Bahia em plano secundário, encontra-se um busto – quase imperceptível para aqueles que veem à distância o gigante de concreto – do ex-deputado estadual e federal Luís Eduardo Magalhães (1955-1998), ex-presidente da Casa no biênio equivalente aos anos de 1983 e 1985. Forjada em bronze pela habilidade manual precisa da escultora Nanci Novais, a minúscula estátua, fixada posteriormente ao falecimento prematuro do ilustre parlamentar e filho de ACM, cujo nome batiza o edifício em formato de pirâmide, é apoiada sobre um suporte circular de fibra de vidro, de tamanho generoso que a peça principal, idêntico a uma pedra comum. Mas o simulacro pétreo da base sustentadora do busto a Luís Eduardo foi obtido através de um genial processo de lapidação da fibra de vidro, um material sintético, tornando-a artificialmente polida.

Também na sede do Poder Legislativo estadual, o plenário é majestosamente ilustrado com uma multicolorida gravura, A Procissão do Bom Jesus dos Navegantes, de Carlos Bastos, no qual também há incrementada abundância de detalhes, propiciando a nítida visibilidade de elementos nela retratados. No painel, personalidades baianas pertinentes aos campos da religião, da música e da política coabitam abstratamente com personagens mitológicos e entes afro-brasileiros, do altíssimo espaço celeste às profundezas aquáticas, em meio a uma Salvador antiquada e mistificada, vista da Baía de Todos-os-Santos. A inclusão, na plasticidade, de Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), um dos mais altivos e eloquentes políticos que a Bahia e o Brasil já tiveram, e seu séquito, justifica seu papel de articulador-mor na estratégia da construção identitária estadual na contemporaneidade.

Pincelado originalmente em 1974, o imponente painel de Carlos Bastos foi completamente dizimado pelo drástico incêndio que interferiu no plenário, no arquivo e na biblioteca em 21 de novembro de 1978, por ser confeccionado em placas de fibra de vidro, material passível de combustão. Contudo, Bastos, exímio artífice das telas, o reconstituiu entre 1993 e 1994, a convite do então presidente da Assembleia, Antônio Imbassahy, hoje deputado federal recém-eleito. A segunda versão da ilustração que complementa o plenário da Assembleia, de fato, é uma versão atualizada da primeira, acrescentando atuais figuras, como a cantora e compositora Daniela Mercury, sempre rodeadas pela galeota Gratidão do Povo. A célebre embarcação, datada de 1892, é a encarregada de conduzir, em direção à Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, a imagem do Jesus crucificado na famosa procissão que acontece no dia 1º de janeiro de cada ano.

Carybé, que embora seja argentino de nascença integra o panteão dos retratadores das circunstâncias da baianidade, deixou sua ilustríssima veia pictórica em outra edificação constituinte do Cab, a sede da Secretaria da Fazenda, numa série de três grandiosos painéis nos arredores da recepção. Esculpida com toque de mestre em madeira nobre envernizada, em 1974, mesmo ano da inauguração do prédio, a apreciável sequência, em refinado equilíbrio de altos e baixos relevos, desvenda os aspectos históricos da produtividade econômica baiana, como a agropecuária, a indústria, o comércio e o extrativismo mineral, bem como as especificações da cultura afro-brasileira. Saliento, portanto, que as plasticidades moldadas por Carybé no Cab são supercaprichadas, tendo como uma de suas peculiaridades a lúcida distinção de relevos.

Nas fachadas traseiras da sede da Secretaria da Agricultura, há uma série de três enormes painéis ornamentais excêntricos, porém atraentes, esculpidos livremente por Juarez Paraíso em concreto, também em 1974. Como revestimentos para os desenhos, Paraíso empregou as pastilhas de vidro policromáticas, formando visivelmente uma espécie de labirinto misterioso que traduz as relações harmônicas entre o homem e os recursos da natureza, mais especificamente a terra, objeto exploratório da agricultura. Hoje, a série inventada por Juarez Paraíso, uma lenda ainda viva dos monumentos recobertos de pastilhas de vidro, encontram-se parcialmente maculados pela ação do tempo, desfigurando de leve o seu visual multicolorido, entretanto alguns murais o conservam. O caso mais crítico da série está, claro, no segundo painel, no qual as manchas e a remoção do grosso das pastilhas estão expostas.

Em agosto deste ano, por ocasião da realização da etapa baiana do circuito de automobilismo Stock Car, foi inaugurado, com a presença solene do Excelentíssimo Senhor Governador Jaques Wagner e de uma receptiva legião de pilotos da categoria, o monumento ao memorável piloto brasileiro, tricampeão mundial de Fórmula 1 (1988, 1990 e 1991), Ayrton Senna (1960-1994). A escultura, moldada magistralmente por Bel Borba, um dos nomes mais expressivos das artes visuais nestes últimos tempos, situa-se em frente à Assembleia, em um dos canteiros centrais, ornamentados com vegetação facilmente adequada ao clima. Pintado em contraste de preto e branco, em particular no seu heroico semblante de vencedor, o monumento dedicado a Senna exalta as homenagens póstumas a um dos áureos ases da velocidade que nosso país já teve.

Enfim, os experientes artistas plásticos foram convocados e ao mesmo tempo financiados pelo então governador do estado, Antônio Carlos Magalhães, que, nesta honrosa acepção, era uma espécie de mecenas e patrono da nossa cultura. Os profissionais incumbidos da confecção das belas artes, portanto, tinham a imensidão do amparo financeiro de ACM para custear as vultosas ilustrações representadoras dos elementos da baianidade e, por conseguinte, embelezar e abrilhantar os exteriores e interiores dos edifícios que sistematizam o Cab, dando-lhes uma formosa aparência. Por meio da implantação do centro, conjugada com os sofisticados e ressonantes traçados prediais, brotou um exitoso matrimônio entre a arquitetura e as artes plásticas, pacto profícuo, nas gerações correntes, para o dinamismo urbano de Salvador e de toda a extensão territorial da Bahia.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Olívia Santana elogia reportagem de sessão plenária no Facebook

Às 5 horas e 44 minutos de hoje, a vereadora Olívia Santana (PC do B), presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer da Câmara Municipal de Salvador, me enviou uma mensagem dedicatória, via Facebook, elogiando a minha reportagem "Sessão discutiu os rumos para a Copa de 2014 na Bahia", publicada na sexta-feira passada, dia 19, neste blog.

Reproduzo, a seguir, a íntegra publicada na rede social da mensagem de Olívia, que foi uma das participantes da sessão especial "Desafios da Copa 2014 na Bahia", realizada naquele dia, no plenário da Assembleia Legislativa:

"Valeu, companheiro. Muito boa a matéria. O debate sobre a Copa tende a crescer. Precisamos abordar diversos aspectos de interesse da população.

Um abraço!"

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Projeto interdisciplinar discute Política e o cotidiano das pessoas

Eu Político, Tu Políticas, Ele Política, Nós Politicamos estreitará as relações do tema central com alunos da UNIJORGE

Hugo Gonçalves - Estudante do 4º Semestre de Jornalismo da Unijorge e Repórter Especial do Casulo

Matéria publicada na página 5 do jornal Casulo, publicação interna do Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge), nº 59, novembro de 2010

Tendo como objetivo aproximar o aluno da prática da cidadania, a UNIJORGE organizará, em seu Campus Paralela, o evento interdisciplinar denominado Eu Político, Tu Políticas, Ele Política, Nós Politicamos. O projeto, que é uma iniciativa dos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda, acontecerá no dia 1º de dezembro, simultaneamente à VIII Mostra de Projetos, na qual ele estará inserido.

Sua proposta, de acordo com a coordenadora dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Produção Audiovisual da instituição, Patrícia Barros Moraes, é trabalhar a política como algo que não está confinado à esfera pública, mas como parte da vida cotidiana. Segundo Patrícia, a importância do evento é trazer para os alunos a consciência de que ele é um ser político. “A ideia surgiu como uma proposta conjunta, amadurecida na nossa reunião de professores, no começo do semestre, quando nós discutimos o tema do interdisciplinar”, afirma a coordenadora.

Como se trata de um trabalho interdisciplinar, seu foco, conforme o sociólogo e professor de Comunicação e Política dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda, Sílvio Benevides, é “ampliar a área de atuação de cada disciplina em torno de um problema comum”. “O presente projeto tem como objetivo geral entender de que maneira o Jornalismo e a Publicidade e Propaganda podem contribuir para o fortalecimento da cidadania e, consequentemente, para a formação de atores políticos atuantes e conscientes”, salienta Sílvio, que também é coordenador do projeto.

Doses de humor

O estudante do 3º semestre de Jornalismo, Ramon Benevides, 25 anos, diz que seu trabalho aborda os votos brancos e nulos. A ideia do tema surgiu como uma brincadeira de Alex Alves, 19 anos, companheiro de grupo de Ramon, aprimorada por outro parceiro, Adson Barros, 20 anos. Alex assistiu a uma matéria do programa CQC, da TV Bandeirantes, no dia anterior à criação do projeto. Para ele, “a repórter (do CQC) perguntou aos deputados no Congresso e eles não estavam sabendo responder às perguntas”. Ramon crê que o trabalho será importante “para ganhar experiência e conhecimento da matéria”.

Daiane Oliveira, 21 anos, também estudante do 3º semestre de Jornalismo, enfatiza que o projeto do seu grupo ironiza com bom humor os personagens políticos que fogem dos assuntos ou abordam temas polêmicos. “Nós resolvemos falar de política, como o CQC faz, ironizando com brincadeiras”, ressalta Daiane. Ela ainda afirma que o trabalho coletivo está sendo produzido há aproximadamente dois meses, e será fundamental devido à questão de estudar política.

Apenas o 3º e o 4º Semestres de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda estão participando do Eu Político, Tu Políticas, Ele Política, Nós Politicamos. Sílvio Benevides observa que o comportamento dos alunos é idêntico ao da população em geral, que vê a política com descrença por parte dos governantes e parlamentares. “Essa descrença vem dos escândalos de corrupção e das promessas de campanha que não são cumpridas”, destaca o professor.

sábado, 20 de novembro de 2010

Compromissada mente

O mês em que eu estou sobrecarregado é novembro.
Minhas atividades diversas, sejam individuais ou coletivas,
deixam meu cérebro sobrecarregado.

Meu cérebro agora está superlotado de
contatos pessoais
(reais ou virtuais),
avaliações,
artigos científicos,
seminários,
matérias jornalísticas,
compromissos confidenciais, sigilosos e intransferíveis.

Preciso estipular um pequeno ou médio intervalo temporal
a fim de evitar minha sobrecarga e meu acúmulo rotineiros.
Os melhores momentos de minha vida, nessas eventualidades,
são o cultivo a uma breve, sumária e agradável ociosidade.

Os LGBTs como minorias sociais

Daniella Souza, Hugo Gonçalves, Jessica Sandes, Laila Cristina e Lindiwe Aguiar
Estudantes de Jornalismo do Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge)

Artigo acadêmico orientado pelo professor Sílvio Benevides, docente da disciplina Comunicação e Política

Resumo

Este trabalho enfoca o papel que os homossexuais - as lésbicas e os gays - e os transexuais, membros de um grupo que também inclui os bissexuais (LGBTs), desempenham enquanto minorias sociais em níveis nacional e internacional, a evolução histórica dessa minoria desde a Antiguidade e as discriminações que eles sofrem, fazendo deles, muitas vezes, seres inferiores. Além disso, traça um panorama dos LGBTs no Brasil, enfatizando as atrocidades cometidas contra eles e suas principais conquistas sociais, e algumas personalidades enquadradas nessa categoria.

Palavras-chave: Homossexuais, Gays, Lésbicas, Transexuais, Minorias sociais

1. Introdução

Dentre todas as chamadas minorias sociais, no Brasil e na maior parte do mundo, os homossexuais, com ênfase nos gays, nas lésbicas e nos transexuais ou transgêneros, continuam sendo as principais vítimas do preconceito e da discriminação, tornando-os mais vulneráveis jurídica e socialmente. No Brasil, em virtude da homofobia, acontece um cruel homicídio de um gay, de uma lésbica ou de um transgênero, também conhecido como travesti, a cada instante. Apenas 10% da população ocidental é formada predominante ou exclusivamente por praticantes do homoerotismo, conforme o Relatório Kinsey, a maior e mais prestigiada investigação sexológica até hoje feita no mundo.

Como podemos observar a priori sua irrisória porcentagem – 10% –, os homossexuais são tratados como minorias porque, segundo o jornalista e professor-doutor em Comunicação Muniz Sodré, “refere-se à possibilidade de terem voz ativa ou intervirem nas instâncias decisórias do Poder aqueles setores sociais ou frações de classe comprometidas com as diversas modalidades de luta assumidas pela questão social.” [SODRÉ apud BARBALHO; PAIVA (orgs.), 2005] São considerados minorias, portanto, os homossexuais, os negros, as mulheres, os povos indígenas, os deficientes, os soropositivos, os ambientalistas, os antineoliberalistas, e outros.

As características de uma minoria social, em conformidade com Sodré apud Barbalho e Paiva (2005), são a vulnerabilidade jurídico-social, a identidade in statu nascendi, a luta contra-hegemônica e as estratégias discursivas. Gays, lésbicas e transgêneros são jurídica e socialmente vulneráveis diante da legitimidade institucional e das políticas públicas, pois eles não são institucionalizados pelas regras do ordenamento jurídico-social em vigor. “Do ponto de vista de sua identificação social, a minoria apresenta-se sempre in statu nascendi, isto é, na condição de uma entidade em formação que se alimenta da força e do ânimo dos estados nascentes.” (Idem apud ibidem, 2005)

Uma minoria, a exemplo dos homossexuais, luta para reduzir o poder hegemônico. Sodré (2005) afirma que, nas tecnodemocracias ocidentais, a mídia é um dos principais "territórios" desse conflito. Ele ainda alega a existência do risco de que as atividades minoritárias possam ser empreendidas apenas em virtude de sua repercussão midiática, “o que de algum modo esvaziaria a possível ação no nível das instituições da sociedade global” (Idem apud ibidem, 2005). Estratégias de discurso e de ações demonstrativas, tais como passeatas, invasões episódicas, gestos simbólicos, manifestos, revistas, jornais, programas de televisão e campanhas pela internet, são os principais dispositivos de luta atuais.

O advogado Leonardo Bruno, no último parágrafo de um de seus artigos publicados no site Mídia sem Máscara, elucida a imperceptibilidade da prática homossexual no movimento negro, mencionando o exemplo de Zumbi dos Palmares.
“A homossexualidade no movimento negro não é algo, à primeira vista, perceptível. Quando o chefe do movimento gay da Bahia Luiz Mott (fundador do Grupo Gay da Bahia) fez insinuações sobre a homossexualidade de Zumbi dos Palmares, alguns militantes negros ficaram furiosos e quase surraram o pederasta. No entanto, o culto narcísico da raça lembra muito os modos de organização nazistas. Eles já exigem diferenciações raciais através da legalidade vigente; pregam de forma sistemática a discriminação racial, ainda que com sua vertente ‘afro’ de racismo. Não me surpreenderia se algo assim degenerasse na homossexualidade plena da raça eleita. A egolatria racialista acaba se tornando culto sexual de seus membros. Porém, o discurso ideológico deles não é só nacional-socialista; é comunista também.” (BRUNO, 2009)
Cinquenta e dois anos depois da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU), os problemas do movimento homossexual brasileiro permanecem intactos. O movimento, lastimavelmente, ainda tem muito a denunciar: a cada dois dias, um indivíduo homossexual continua sendo brutalmente assassinado no Brasil, tendo como causa suprema a homofobia.

2. Evolução histórica

2.1. Grécia Antiga

As palavras “homossexual”, “homossexualidade” e “homossexualismo” não existiam na Grécia da Antiguidade, sendo cunhadas na Idade Contemporânea, no século XIX, mais precisamente em 1869, a partir de dois elementos – o grego homo (igual, semelhante) e o latino sexus (sexo, proveniente do verbo secare, “cortar, dividir”).

A forma mais comum de homossexualidade entre os gregos antigos, segundo o psicólogo Luiz Augusto de Freitas Guimarães, era a pederastia, que era o relacionamento amoroso entre um adulto com idade superior a 30 anos e um adolescente entre os 14 e 16 anos. A relação sexual entre adultos do mesmo gênero não era frequente e, quando a ocorria, era ignorada, em particular entre dois indivíduos do sexo masculino, pois havia a preocupação com o problema da passividade. Segundo essa questão, um homem não podia ter relações passivas com outro do mesmo gênero, exceto para um escravo ou uma pessoa de classe inferior.

O exercício da homossexualidade no contexto da pederastia não era excludente, pois “o fato de o homem ter sua esposa não era impedimento para que se relacionasse com um adolescente. E nem o fato de se relacionar com o adolescente significava o fim do seu casamento.” (GUIMARÃES, s/d) A pederastia modificava, com dificuldade, o aspecto do homem frente à sociedade, pois os cultos ao belo, ao sublime, à inteligência e à cultura não tinham sexo. Entretanto, a busca do sexo pelo sexo era condenável.

Além do componente etário, a relação de pederastia incluía a questão do status social, no qual o homem deveria ter superioridade intelectual, cultural e econômica sobre o adolescente. Portanto, ele complementaria a formação do indivíduo, introduzindo-o nas artes do amor e nos estudos da filosofia e da moral ou ética.

Entre os 17 e os 18 anos de idade, com o aparecimento no adolescente dos primeiros indícios de virilidade, como os pelos e a barba, o fim das relações pederásticas já era evidente. Permanecer nessa relação após o advento da virilidade era reprovável, principalmente para o homem, já que estaria se envolvendo com outro homem.

Além de Atenas, o elo entre pessoas do mesmo sexo também teve destaque em Esparta, porém com um sentido um pouco diferente do presenciado na capital grega. Eram estimuladas, além da pederastia, as relações entre os membros do exército espartano, que objetivavam torná-los mais fortes. “O que levava os comandantes do exército a estimular esse tipo de relação era o fato de acreditarem que um amante, além de lutar, jamais abandonaria outro amante no campo de batalha. O Batalhão Sagrado de Tebas, famoso por suas vitórias, era formado totalmente por pares homossexuais.” (Idem, s/d)

A homossexualidade feminina também teve seu lugar na Grécia Antiga. E, a despeito de a mulher não ocupar status e, consequentemente, a escassez de registros históricos, é da Antiguidade grega que se origina o vocábulo “lésbica” para designar a mulher homossexual. “Lésbica” deriva de Lesbos, o nome da ilha onde viveu a famosa poetisa Safo, que explicitava sua predileção sexual pelo mesmo gênero. Além de Safo, outros nomes célebres cultivavam amores homossexuais. Zeus, deus supremo da mitologia grega, se apaixonou pelo jovem Ganimedes, devido à sua beleza que o levou para o monte sagrado, o Olimpo. De acordo com Guimarães (s/d), Teseu seduziu não somente mulheres virgens no labirinto, mas também os monstros. Os filósofos Sócrates e Platão e o legislador Sólon foram pederastas neste sentido.
“Na Grécia Antiga, as relações entre homens, que hoje nomeamos de homossexualismo, eram quase sempre orientadas para finalidades específicas e ultrapassavam a simples busca do prazer sexual. A pederastia visava à formação do jovem, tanto em Esparta quanto em Atenas. No exército espartano o amor entre soldados fortalecia o exército. Em nenhum dos dois casos estava excluída a relação com uma mulher, no presente ou no futuro. É com o advento do Cristianismo que essas relações passam a ser vistas como pecaminosas.” (Idem, s/d)
2.2. Idade Média

O Cristianismo já exercia influência e penetração significativas no mundo ocidental durante a Idade Média, ocasionando uma nova ruptura na sexualidade onde o prazer e o erotismo deveriam ser absolutamente excluídos. De acordo com as Escrituras Sagradas, Deus fez o homem para a mulher e vice-versa, ou seja, a mulher para ser submissa e respeitada pelo homem. Nesse período o termo “homossexualidade” ainda era inexistente.
“A sexualidade passou a ser controlada, o sexo era atividade suja e degradante, considerado extremamente repulsivo perante o ‘sagrado’. O homem não deveria se entregar ao prazer da carne, o sexo estava apenas reservado para procriação e deveria ser isenta de erotismo. Já o homossexualismo passou a ser visto como crime passível à pena de morte, assim como o adultério e o incesto.” (CONSIDERAÇÕES..., s/d.)
A oposição clerical frente ao homossexualismo e à sexualidade era bem nítida, pois eles eram vistos pela Igreja Católica como profanos. Deus atribuiu a sexualidade ao ser humano apenas para a procriação, contudo qualquer ato que o levasse ao prazer erótico era tido como pecado mortal. As cidades de Sodoma – de cujo nome provém o vocábulo “sodomia” – e Gomorra são exemplos ilustres do que o Deus judaico-cristão é capaz de fazer para quem ousar desfrutar dos prazeres sexuais.

“Por outro lado, o próprio clero era acusado de práticas homossexuais nos mosteiros. Monges e rapazes formaram pares ‘insaciáveis’ às escondidas.” (Idem, s/d) As penas aplicadas pela Igreja para as atividades homossexuais variavam de acordo com o status social do praticante. Os monges e outros membros eclesiásticos eram punidos com penas brandas, já aqueles que não eram fiéis ao clero eram condenados à morte, podendo ser queimados vivos, torturados, enforcados e castrados (tiveram seus órgãos genitais mutilados).

2.3. Idade Moderna

Nessa fase, a prática homossexual permaneceu sem grandes alterações. As torturas e crueldades ainda eram restritas aos que ousavam desafiar a lei natural imposta pelo Deus cristão. Mesmo com a pena de morte por enforcamento, os homossexuais não assumiram publicamente sua condição.

Na primeira metade do século XVIII, segundo Mariana Motomura (s/d), começaram a surgir vários bordéis masculinos na Inglaterra, denominados molly housesmolly era o termo inglês para “efeminado” –, porém esses estabelecimentos funcionavam confidencialmente. Margaret Clap, proprietária de um dos bordéis, foi descoberta e condenada a dois anos de prisão em 1726.

2.4. Idade Contemporânea

Algumas mudanças aconteceram e estão acontecendo no estágio atual. A ocorrência do coito (acasalamento) ou não iria determinar a gravidade da pena a ser aplicada ao homossexual. Somente em 1869 a homossexualidade passa a promover interesses de estudiosos, sendo o primeiro passo de um cenário repleto de condenações e exclusões.

De acordo com o Dicionário Internacional de Psicanálise, apud Maia (2009), “o termo ‘homossexual’ foi criado pelo escritor e jornalista austro-húngaro K.M. (Karl Maria) Benkert, também conhecido pela forma húngara de seu nome, Károly Mária Kertbeny, que foi uma importante voz na defesa dos direitos sexuais na época e até hoje é homenageado em eventos LGBT da Hungria.” A palavra “homossexual” foi publicada pela primeira vez em 1869, em um panfleto manuscrito em que Benkert discutiu a interdição da sodomia pelo Código Penal prussiano.

Para alguns, a homossexualidade era uma crueldade a ser controlada pelo Estado; para outros, é uma doença que deveria ser bem estudada e tratada. Foi nessa conjuntura que o termo “homossexual” apareceu, criado pelo supracitado Benkert para denominar os indivíduos que sentem atração sexual por outro do mesmo gênero. A fogueira, a forca, o apedrejamento e a castração, vigentes desde o medievo, foram substituídos pela exclusão moral.
“O homossexual passa a ser um doente perverso, representante de tudo que suscita indignação. Era, sobretudo, uma ameaça às boas famílias e ao padrão de homem ‘machão’ de uma sociedade estruturada sobre a égide do patriarcado.” (CONSIDERAÇÕES..., s/d)
A homossexualidade não está mais reservada no seio de um modelo patriarcal nem da fé judaico-cristã. “Os religiosos não mais acenderão fogueiras em nome de Deus para queimar esses ‘desviantes’, mas alimentarão um repulsivo ódio a esses ‘pecadores’. Alguns adotarão uma atitude ‘politicamente correta’ e dirão que só o Criador é capaz de julgar. E o julgamento já foi feito, Deus nunca erra, portanto, ele não voltará atrás, a pena reservada ao homossexual já foi decretada, é a mesma que foi dada a Sodoma e Gomorra” (Idem, s/d). No século XX até o presente, os homossexuais estão confinados às segregações social e moral, além da violência exercida por grupos que se autodeclaram, literalmente, “caçadores de homossexuais” (Idem, s/d).

3. Homossexualidade no Brasil

Durante os três primeiros séculos da História do Brasil – XVI, XVII e XVIII –, a homossexualidade era apelidada de “abominável e nefando pecado de sodomia”, “um crime equiparado, na penalidade, ao regicídio e à traição nacional e castigado com igual rigor”, conforme o antropólogo Luiz Mott (2005), fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB). Isso significava que dois homens, ao manter relações sexuais, deviam ser severamente punidos, assim como os acusados de crimes de lesa-majestade.

Conforme Mott (2005), a sodomia deixou de ser crime apenas às vésperas da Independência, em 1821, quando foi extinto o Santo Ofício ou Tribunal da Inquisição em Portugal. Influenciado pelo Código Napoleônico, o Código Criminal de 1823, proposto pelo imperador D. Pedro I, “igualmente descriminalizou o amor unissexual” (Idem, 2005). Para o antropólogo, a legislação contribuiu para a ascensão dos pederastas – como eram chamados os homossexuais naquela época – à cidadania.
“O preconceito anti-homossexual continua atuante e implacável em nossa sociedade. Portanto, somente após 150 anos depois da descriminalização da homossexualidade, alguns poucos gays e lésbicas ousaram identificar-se e proclamar aos quatro ventos: “É legal ser homossexual!”. Legal na dupla acepção do termo, não só porque a Lei protege homossexuais, mas também porque as ciências garantem que as três orientações sexuais – homossexualidade, bissexualidade e heterossexualidade – são igualmente legítimas, saudáveis e naturais.” (Idem, 2005)
Amparado nessas conquistas primordiais, o antropólogo revela “um futuro esperançoso e brilhante para mais de 10% dos brasileiros e brasileiras praticantes do amor unissexual” (Idem, 2005). Em outras palavras, “é um futuro em que a alegria, as purpurinas e os paetês, tão ao gosto da estética gay, e o amor e a liberdade de amar hão de se tornar patrimônio universal de toda a humanidade. Afinal, ‘gente nasceu para brilhar, e não para morrer de fome’” (Idem, 2005). Para demonstrar a importância e a grandeza do dinamismo das minorias sexuais, cerca de 1,5 milhão de gays, lésbicas e simpatizantes (GLS) – um número histórico –, participaram da Parada do Orgulho Gay de 2004, em São Paulo.

3.1. História do Movimento Homossexual Brasileiro

O Movimento Homossexual Brasileiro (MHB) teve início em 1978. No mesmo ano, foram instituídos, no Rio de Janeiro, a primeira publicação gay do país, o jornal O Lampião da Esquina, e em São Paulo, a primeira entidade especializada na defesa dos direitos dos homossexuais, o Somos: Grupo de Afirmação Homossexual.
“A partir daí, mais de 300 grupos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (GLBT) foram fundados de Norte a Sul do país, alguns com vida efêmera. Hoje, existem por volta de 150 ONGs GLBT espalhadas do Oiapoque ao Chuí. O mais antigo em funcionamento é o Grupo Gay da Bahia (GGB), fundado em 1980, no mesmo ano em que se realizou o primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais, celebrando-se, no ano seguinte, pela primeira vez no país, o Dia do Orgulho Gay.” (Idem, 2005)
Em 1982, o grupo paulista Outra Coisa produziu um folheto pioneiro advertindo aos homossexuais a respeito da Aids, então chamada de “peste gay”, “câncer gay” ou “praga gay”. Nesse mesmo ano, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Associação Brasileira de Antropologia, a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais e a Associação Brasileira de Estudos Populacionais aprovaram moções contra a homofobia e articularam movimentos em defesa dos direitos da cidadania dos homossexuais. O Conselho Federal de Medicina organizou, em 1985, uma campanha nacional que visava suprimir o homossexualismo da classificação de doenças, recebendo a adesão de mais de 16 mil signatários, incluindo intelectuais, políticos e artistas.

Os grupos Triângulo Rosa, do Rio de Janeiro, Libertos, de São Paulo, e o GGB iniciaram, em 1986, uma campanha entre os constituintes com o propósito de incluir a proibição da discriminação por orientação sexual no texto constitucional. Não obstante, o pleito acabou não sendo contemplado na versão final da Constituição de 1988. Nesse último ano, o GGB passou a integrar a Comissão Nacional de Aids do Ministério da Saúde, sendo o primeiro representante homossexual a ocupar tal cargo. Em 1990, a partir de um projeto de lei de autoria dos então vereadores Bete Wagner (PCB) e Gilberto Gil (PV), Salvador tornou-se a primeira cidade da América Latina a proibir a discriminação por orientação sexual, servindo de modelo para 72 cidades e 2 estados brasileiros – Sergipe e Mato Grosso.

Renildo José dos Santos, de Coqueiro Seco, município da Grande Maceió, primeiro vereador gay assumido do Brasil, foi barbaramente assassinado em 10 de março de 1993 após sequestro e tortura, mas seus assassinos continuam impunes. O crime teve repercussão internacional e forte apelo por justiça junto à comunidade local e aos grupos de direitos humanos e gays. Em homenagem a Renildo, foi instituído em março de 2001, pelo Grupo Gay de Alagoas (GGA), o Prêmio Renildo José dos Santos de Direitos Humanos, que reivindicava a criação de um memorial ao homenageado. A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT) foi fundada em 1995. Hoje ela conta com mais de 150 grupos filados, convertendo-a, anos mais tarde, na maior entidade homossexual da América Latina.

Ainda em 1995, foi apresentado o projeto de lei de Parceria Civil Registrada, iniciativa da então deputada federal Marta Suplicy (PT-SP), atualmente senadora recém-eleita, porém ele ainda está em tramitação nas duas casas do Congresso Nacional. Pela primeira vez, em 1996, os homossexuais são mencionados num documento oficial do governo brasileiro, no Plano Nacional de Direitos Humanos, e incluídos entre os grupos sociais mais vulneráveis de nossa sociedade. O Conselho Federal de Medicina autorizou, em 1997, a operação de transexuais, embora o Congresso ainda não tenha votado projeto de lei regulamentando tal procedimento cirúrgico. Em 1999, outro Conselho Federal, o de Psicologia, aprovou resolução proibindo terapias que têm por finalidade a “cura” de homossexuais.

O adestrador de cães Edson Néris da Silva foi barbaramente massacrado na Praça da República, no Centro da cidade de São Paulo, no dia 6 de fevereiro de 2000, aos 35 anos, por uma gangue de neonazistas skinheads, denominada Carecas do ABC. As causas do óbito, de acordo com a reportagem publicada na revista Veja (2000), foram “hemorragia interna e fraturas múltiplas”. O crime ocorreu quando Edson passeava pelo local de mãos dadas com seu namorado Dario Pereira Netto. Esse assassinato tornou-se o crime homofóbico de repercussão nacional relevante, ganhando manchetes em jornais, revistas e organismos internacionais de direitos humanos.
“Edson tinha 35 anos e trabalhava como adestrador de cães. Desde os 18, frequentava a Igreja Mórmon. Foi casado por duas vezes e havia dez anos, segundo a cunhada Liliane Fraga, era portador do vírus da Aids. Na noite de sua morte, saiu de casa por volta de 8 horas. Às 11 e meia, ele telefonou para a família e avisou que dormiria fora. Edson estava com o amigo Dario Pereira Netto, de 34 anos, homossexual assumido. Eles haviam se conhecido dez dias antes e aquele era o segundo encontro dos dois. Quando cruzaram a Praça da República, reduto gay da cidade, Edson e Dario chamaram a atenção dos Carecas: estavam de mãos dadas. Foi o bastante para despertar a fúria da gangue. ‘Percebemos que os Carecas marchavam ostensivamente em nossa direção’, contou Dario à polícia. ‘Gritei para meu amigo: 'Corre' e levei um chute pelas costas.’ Ele conseguiu escapar.” (VEJA, 2000, p. 112)
Também no ano 2000, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu o direito previdenciário de pensão aos parceiros gays por falecimento ou detenção. Foi fundada, em 2001, a Articulação Nacional de Travestis (Antra). Pela primeira vez na história brasileira, em 2002, um presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, pronunciou publicamente a palavra “homossexual”, apoiando a união civil entre pessoas do mesmo gênero. “Nesse mesmo ano, o Grupo Gay da Bahia lançou o Livro de União Estável Homossexual, reconhecido pelo INSS como documento legal para comprovação de relações estáveis e recebimento de benefícios.” (Mott, 2005)

A Parada do Orgulho Gay de São Paulo, em 2003, agregou mais de 1 milhão de participantes, tornando-se a maior manifestação mundial de homossexuais. No mesmo ano, o dia 29 de agosto, instituído como o Dia da Visibilidade Lésbica desde 1996, em referência ao I Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), ocorrido no Rio de Janeiro, foi definido durante sua quinta edição, sediada em São Paulo. “Nessa edição do evento, as lésbicas decidiram realizar atividades em todo o País em comemoração ao dia da visibilidade. Desde então, ano a ano, crescem em número e qualidade as ações pela visibilidade lésbica.” (LIGA..., 2008) Em 2004, o Governo Federal lançou o programa Brasil sem Homofobia, reivindicando 51 ações afirmativas a serem realizadas por 11 Ministérios. No mesmo ano, o Ministério da Cultura implantou o Grupo de Trabalho de Promoção da Cidadania para Homossexuais.

3.2. Assassinatos

Com o intuito de combater a discriminação e a violência anti-homossexuais em nosso país, o Grupo Gay da Bahia, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT), divulga anualmente um dramático dossiê, o mais completo produzido no país e na América Latina, batizado Violação dos direitos humanos e assassinatos de homossexuais no Brasil. A situação descrita no dossiê concernente ao ano de 2003 é deplorável, comprovando “que a intolerância, a violência e os assassinatos de gays, lésbicas e travestis têm se mantido nos últimos anos praticamente nos mesmos patamares de selvageria e impunidade.” (MOTT, 2005)

Léo Kret do Brasil, vereadora de Salvador pelo Partido da República (PR), salienta que existem, na Bahia, aproximadamente 300 mil homossexuais que estão diariamente vulneráveis a hostilidades que vão “desde a mera expressão verbal até a agressão física violenta” (apud FILHO, 2009). Ela demonstra que, de acordo com o relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado em abril de 2008, a Bahia aparece como o estado mais violento para homossexuais e travestis, com cerca de 15% dos assassinatos registrados em 2007.

A tabela abaixo exibe a evolução quantitativa de assassinatos de homossexuais no período compreendido entre os anos de 1963 e 2003. Convém ressaltar que os dados contidos na tabela referem-se apenas a dois terços do território nacional. “Dessas vítimas, gays representam 63%, travestis, 31%, lésbicas, 6%.” (MOTT, 2005) Proporcionalmente, os travestis sofrem muito mais do que lésbicas e gays, pois a população de transgêneros brasileiros deve alcançar a cifra de 20 mil indivíduos, ao passo que os gays ultrapassam 17 milhões.

(Fonte: Idem, 2005)
“(...) esses assassinatos não se tratam de crimes comuns, fruto de assalto ou bala perdida. São crimes de ódio, e a condição homossexual da vítima foi determinante no modus operandi do agressor. Portanto, “crime homofóbico” é motivado pela opinião preconceituosa dominante em nossa sociedade machista, que vê e trata o homossexual como presa frágil, efeminado, medroso, incapaz de reagir ou contar com o apoio social quando agredido.” (Idem, 2005)
Tais crimes, de acordo com Mott (2005), são caracterizados por quantidades altíssimas de manifestação de ódio por intermédio de golpes intensos, utilização de vários instrumentos mortíferos e tortura prévia. A impunidade e a homofobia no interior da polícia e da justiça estimulam a violência machista homofóbica. Essa mesma homofobia, vergonhosamente, se utiliza dos discursos governamentais e também da mídia nacional, responsável pelos crimes.

3.3. Consolidação dos direitos humanos dos homossexuais

O Governo Federal, através do Programa Nacional de Direitos Humanos, reconheceu a vulnerabilidade dos homossexuais em nossa sociedade. Partindo dessa premissa, foi lançado, em maio de 2004, o programa Brasil sem Homofobia, com 11 ministérios engajados na promoção de ações afirmativas contra o “racismo anti-homossexual”. O cumprimento da Constituição e a investigação, o julgamento e a punição dos crimes sexuais devem ser rigorosamente colocados em prática pelos nossos governantes.

Luiz Mott (2005) enumerou quatro soluções de longo prazo para atenuar e erradicar a crônica homofobia no Brasil:
“1. Educação sexual em todos os graus escolares, ensinando a todos (as) os (as) jovens que a pessoa homossexual é um ser humano e que a livre orientação sexual é um direito inalienável de cidadania;

2. Diálogo com as diferentes denominações religiosas, para desconstruir o discurso homofóbico e a postura fundamentalista que considera e discrimina as pessoas homossexuais como pecadoras possuídas pelo demônio;

3. Leis que punam exemplarmente as pessoas que discriminam, violentam e assassinam gays, travestis e lésbicas, equiparando a homofobia ao crime de racismo, capacitando a polícia e a justiça a investigar e julgar, com exemplar severidade, os (as) responsáveis por crimes homofóbicos;

4. Campanhas de conscientização dirigidas às pessoas homossexuais para que reajam ao serem ameaçadas e agredidas, para que registrem queixa quando forem vítimas de qualquer preconceito e discriminação e para que saiam do armário e se assumam com orgulho e dignidade, convencendo a sociedade heterossexista de que a livre orientação sexual é um direito humano fundamental.” (Idem, 2005)
4. Algumas personalidades LGBTs

4.1. Luiz Mott

O antropólogo Luiz Alberto de Barros Mott, 64 anos, é natural da cidade de São Paulo. Formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), é doutor em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular aposentado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Assumiu sua orientação sexual em 1977. Radicado em Salvador desde o final da década de 70, Mott fundou, em setembro de 1980, o Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga organização não-governamental em atividade no Brasil que luta pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBTs), da qual se tornou presidente e, a posteriori, secretário de Direitos Humanos, cargo que exerce atualmente. Luiz Mott é autor de vários livros de denúncias e mapeamento da discriminação contra LGBTs, alguns deles traduzidos para outros idiomas.

4.2. Léo Kret do Brasil

Um notório exemplo do avanço das conquistas sociais dos homossexuais brasileiros está evidenciado no âmbito político. Nas eleições municipais de 2008, em Salvador, a travesti Léo Kret do Brasil, dançarina de uma das bandas de pagode mais populares da capital baiana, a Saiddy Bamba, foi eleita vereadora pelo Partido da República (PR), com 12.860 votos. Léo Kret, cujo nome de batismo é Alecsandro de Souza Santos, foi a quarta candidata a vereadora mais votada naquele pleito, sendo empossada em 1º de janeiro de 2009. Concorreu a deputada estadual, entretanto ela não foi eleita, mesmo sendo a predileta de 22.534 eleitores.
“No momento em que uma transexual ocupa a posição numa Câmara de Vereadores, eleita por uma grande vontade popular, passamos a ocupar, coletivamente, um espaço até então predominantemente hetero, tradicional. Passamos a pautar discussões e a estimular políticas públicas, tratamentos e mudanças de hábitos, inclusive oficiais, que nos leva a crer que teremos o início do que consideramos uma necessária Visibilidade Transcidadã. Esta visibilidade traz consigo um reconhecimento e, ao mesmo tempo, uma reparação a um pensamento e prática ainda vigente, porém enfraquecida, que diz os lugares que aquelas e aqueles que transgridem devem ocupar e que não são espaços de poder.” (LÉO KRET DO BRASIL, 2009)
Segundo o jornalista e escritor Valdeck Almeida de Jesus (2009), Alecsandro, hoje com 26 anos, assumiu a identidade feminina a partir dos 15, quando o apelido Léo Kret surgiu como uma piada de escola, devido à sensualidade de sua dança. Desde então, ela se sentia constrangida quando era chamada por seu nome de batismo. Para o Meritíssimo Juiz Nelson Cordeiro, da Vara de Registro Civil da Bahia, a mudança de nome na transexual tem por objetivo a sua inserção na sociedade, pois ela “sofre rejeição da própria família” (apud JESUS, 2009), frisando que o direito à opção sexual “é inerente à liberdade da pessoa e à sua dignidade”. (apud idem, 2009)

Em 18 de novembro de 2009, Léo Kret do Brasil passou a ser também o nome civil da dançarina e vereadora de Salvador, desde a publicação da sentença pelo magistrado. Ela afirmou que “esta é uma grande vitória e evolução, não só para mim, mas para milhares de travestis e transexuais que vivem constrangidas e excluídas de diversos meios devido a esta questão” (apud idem, 2009). Conforme Jesus (2009), outras transexuais podem, a partir de importantes conquistas como essa, solicitar à Justiça a mudança do seu nome de nascença, “para evitar piadas e gracejos” (Idem, 2009) e reafirmar a sua identidade sexual.

Novos projetos estão sendo apresentados pela primeira transexual a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Salvador, como o pedido de regulamentação da Lei Anti-Homofobia e o direito à utilização de nomes sociais para travestis e transexuais em âmbitos estadual e municipal.

4.3. Jean Wyllys

Além de Léo Kret, outro representante do movimento LGBT conseguiu a proeza de ampliar sua bandeira de luta na esfera política. O jornalista e professor universitário Jean Wyllys de Matos Santos, baiano nascido em Alagoinhas há 36 anos, elegeu-se deputado federal pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol) do Rio de Janeiro, apesar de ter obtido apenas 13.018 sufrágios computados. Sua ascensão ao Congresso Nacional foi beneficiada pela votação do deputado reeleito Chico Alencar, seu correligionário, o escolhido por mais de 240 mil eleitores.

Jean Wyllys tornou-se conhecido nacionalmente após vencer a quinta edição do reality show Big Brother Brasil, exibida em 2005 pela TV Globo. Em entrevista a Veja (2010), ele declara que suas primeiras medidas como parlamentar serão ingressá-lo nas Comissões de Direitos Humanos e de Educação da Câmara e aumentar a bancada no Congresso em prol da liberdade sexual, visando legislar para todas as minorias sociais.
“Antes de ser um notório militante do movimento gay, eu sou um defensor dos Direitos Humanos. É como defensor dos Direitos Humanos e das liberdades constitucionais – e, claro, por ser gay assumido, logo, parte de um coletivo com cultura e demandas específicas – que eu abraço as bandeiras do movimento gay. Minha primeira medida será me integrar às comissões de Direitos Humanos e de Educação da Câmara dos Deputados, bem como ampliar a frente parlamentar pela livre expressão sexual, para, a partir daí, legislar em favor das minorias, entre as quais está também o chamado ‘povo de santo’, tão demonizado e perseguido por cristãos fundamentalistas.” (WYLLYS apud VEJA..., 2010)
Na mesma entrevista, Wyllys é favorável ao direito à adoção de crianças por homossexuais, no entanto há um projeto de lei de autoria do deputado João Matos (PMDB-SC), aprovado no dia 20 de agosto de 2008, que o inibe. “Há, no Congresso Nacional, um projeto que quer VEDAR a adoção por casais homossexuais. Vou me posicionar contra este projeto. Além disso, sempre que for possível e necessário, vou acompanhar, de perto, os casos julgados pelo Judiciário, dando meu apoio e mobilizando a opinião pública.” [Idem apud VEJA..., 2010, in JEAN Wyllys (Página oficial), 2010]

4.4. Harvey Bernard Milk

Político e ativista gay estadunidense, o nova-iorquino Harvey Bernard Milk (1930-1978) foi o primeiro homem abertamente homossexual a ser eleito para um cargo público no estado da Califórnia, como supervisor – cargo equivalente a vereador, no Brasil – da cidade de São Francisco.

Milk transferiu-se de Nova York para fixar residência em São Francisco em 1972, simultaneamente a uma migração de homossexuais masculinos que se deslocaram para o Castro, bairro gay mais famoso do mundo, na década de 1970. Candidatou-se três vezes para cargos políticos, perdendo em todas as oportunidades, todavia suas campanhas deram-lhe crescente popularidade. Em 1977, como reflexo das mudanças sociais que a cidade estava enfrentando, foi eleito supervisor, exercendo o mandato por apenas 11 meses e sendo responsável pela aprovação de uma rigorosa lei sobre direitos gays para a cidade.

Junto com o então prefeito de São Francisco, George Moscone, Harvey Milk foi assassinado em 27 de novembro de 1978, aos 48 anos, por seu colega Dan White. Apesar da sua meteórica trajetória na vida política, Milk se tornou um ícone na cidade californiana e "um mártir dos direitos gays", de acordo com o professor da Universidade de São Francisco, Peter Novak. Em 2002, foi chamado “o mais famoso e o mais significativo político abertamente LGBT já eleito nos Estados Unidos”.

5. Considerações finais

Observamos que os direitos humanos credenciados pelos homossexuais são evoluídos em cronologia contínua e dinâmica, mas em determinados períodos houveram certas restrições impostas pelos poderes hegemônicos que estavam em vigor. Um exemplo primordial encontrava-se na Idade Média, quando a Igreja Católica exercia um incomensurável domínio sobre a sociedade de então, condenando a homossexualidade como um pecado de extrema gravidade.

Assim como as demais parcelas rotuladas de minorias sociais, os indivíduos enquadrados no grupo denominado LGBT são frequentemente desrespeitados e discriminados, utilizando-se de mecanismos bárbaros como o assassinato. Os dispositivos discriminatórios em detrimento dos LGBTs ainda persistem em todos os cantos do mundo, inclusive no Brasil, a despeito de as conquistas sociais, políticas, econômicas e culturais avançaram de modo considerável.

Referências

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CÂMARA aprova lei de adoção, mas casais homossexuais ficam fora do projeto. Folha de S. Paulo, São Paulo, 20 ago. 2008, Cotidiano. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u435942.shtml. Acesso em: 15 nov. 2010.

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

1.471 estudantes estão sem aula em razão de surto

Aulas em duas escolas de São Rafael continuam suspensas há 25 dias por causa de um surto de dermatite

Com informações de Hieros Vasconcelos, de A Tarde

Os estudantes das escolas municipais Orlando Imbassahy e São Marcos, ambas em São Rafael, no total de 1.471, não estão comparecendo temporariamente às aulas há 25 dias em decorrência de um surto de dermatite, uma inflamação na pele. Os primeiros sintomas da doença foram detectados há um mês, completado hoje.

Após a incidência dos primeiros sintomas nas duas unidades escolares, como coceiras, manchas avermelhadas e problemas respiratórios, em 19 de outubro, a Vigilância Epidemiológica passou a investigar o surto. Há suspeitas de que a contaminação tenha ocorrido com o ar e pelo contato com o ambiente, provavelmente higienizado com produtos químicos adulterados.

Os produtos utilizados foram transportados para o Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (Lacen), a fim de analisar o teor de cloro e as possíveis substâncias adulteradas. A Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secult) informa que as aulas continuam suspensas até que a situação nas escolas infectadas volte a ser regularizada.

Sessão discutiu os rumos para a Copa de 2014 na Bahia

Evento realizado no plenário da Assembleia Legislativa abriu espaço para os desafios do campeonato no estado

As diretrizes a serem traçadas na Bahia para a Copa do Mundo de Futebol de 2014, no Brasil, foram discutidas em sessão especial da Assembleia Legislativa, realizada no plenário da Casa, na manhã desta sexta-feira. Proposto pelo deputado Álvaro Gomes (PC do B), o evento, intitulado “Desafios para a Copa 2014 na Bahia”, também apresentou o Plano Diretor da Copa 2014 no estado. A sessão foi declarada aberta pelo presidente da Assembleia, deputado Marcelo Nilo (PDT).

Na tribuna do plenário, Álvaro Gomes, primeiro orador inscrito, parabenizou os convidados por seu prestígio no evento. Marcaram presença representantes estaduais e municipais, dirigentes de entidades representativas e parlamentares. Na Assembleia, Álvaro é um dos árduos defensores da abertura da Copa na Bahia, e ao lado de outros parlamentares, está lutando, em clima de unidade, para assegurar recursos destinados à realização do torneio no estado.

Para a Copa, deverão ser gerados no estado 3.600 milhões de novos empregos. “O que nós queremos não é crescimento. Nós queremos é desenvolvimento econômico e geração de emprego e renda”, pondera Álvaro. Além disso, a vinda do campeonato para terras baianas estimulará o investimento em esporte para melhorar as condições de vida da população, pois ele é uma das questões fundamentais do ser humano.

Parceria estratégica

O coordenador do Escritório da Copa da Prefeitura de Salvador, Leonel Leal, declarou que a capital está enfrentando os desafios da mobilidade urbana e da geração de emprego e renda. Segundo ele, Salvador tem condições de receber o campeonato por meio de uma parceria estratégica entre a Prefeitura e o Governo do Estado, e uma Copa sustentável só será possível com a execução de um conjunto amplo de iluminação, mobilidade e outros fatores de êxito na cidade.

No Congresso Nacional, os deputados Daniel Almeida e Alice Portugal, ambos do PC do B, têm lutado sobre a vinda da Copa para o estado. Com sua retórica veemente, Alice explicou que a Secopa deve ser “reabastecida de energias” para assegurar a sua magnitude. “É preciso avançar mais, constituir de fato, os desequilíbrios regionais”, afirmou.

Com o propósito de aprimorar a prática esportiva na Bahia, a comunista defende abertamente, além da construção da Arena Fonte Nova, o restabelecimento, em Salvador, de dois equipamentos hoje demolidos em virtude da derrubada do velho Estádio Octávio Mangabeira – o centro olímpico e o ginásio. Cada discurso que Alice proferiu na sessão mereceu aplausos devido à sua veemência.

Segundo Elias Dourado, chefe de gabinete da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), a criação da Secretaria Extraordinária para Assuntos da Copa do Mundo Fifa Brasil 2014 (Secopa), em 2009, foi um momento especial para impulsionar o ingresso da Bahia no universo das cidades-sedes.

Sem ficar de fora

Representando o presidente da Federação Baiana de Futebol (FBF), Ednaldo Rodrigues, o vice-presidente Manfredo Lessa salientou que a Bahia não deve ser excluída da união entre os estados que sediarão o campeonato. Para o secretário da Secopa, Ney Campello, o evento “é muito mais do que a dimensão lúdica do torcedor em comemorar e celebrar”. Nos próximos anos, segundo Campello, a Bahia será não só uma referência esportiva, mas também nacional na organização da Copa 2014.

Além da Copa, as Olimpíadas de 2016 poderão ser elementos catalisadores da estratégia da Bahia, sendo uma oportunidade única de promovê-la nacional e internacionalmente. A construção da Arena Fonte Nova e a realização da Copa terão como legado a infraestrutura qualitativa e quantitativa. O Plano Diretor está apoiado em três pilares: estratégias, programas e modelo de gestão.

Foi elaborado, pela consultoria Pricewaterhouse Coopers, um diagnóstico da situação atual de Salvador cuja metodologia é analisar as 9 dimensões de infraestrutura na cidade. A vereadora Olívia Santana (PC do B) justifica a não redução da Copa à condição de evento, sendo um empreendimento que deixará um enorme legado para a Bahia. “É preciso ter maestria na defesa dos interesses do estado”, assegura Olívia. Ney Campello ponderou que a sessão na Assembleia, encerrada por seu proponente, Álvaro Gomes, cumpriu plenamente seu objetivo pela capacidade de mobilização.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um pouco de minha gênese

Possuo, sobretudo, dois nomes de batismo: Hugo e Leonardo. O meu primeiro nome, Hugo, tem origem germânica e seu significado pode ser traduzido como pensamento, espírito e razão, três das minhas especificidades que me tornam um ser racional e virtuoso. Leonardo, o segundo, provém do teutônico, e significa "bravo como um leão".

Antes de minha mãe Jaciara, recém-casada àquela altura, parir pela primeira vez (sou primogênito dela), há 22 anos, ela escolheu "Hugo" por ser um nome curto, com quatro letras, dissílabo e, portanto, de fácil memorização. Para que eu tivesse dois nomes, meu pai Celino optou por "Leonardo" com o objetivo de complementar o primeiro. Foi assim que, após chegar a um consenso, meus pais me batizaram com o nome definitivo.

Quanto a meus sobrenomes, o primeiro, Nascimento, é latino, fundamentado na tradição cristã, e está associado ao nascimento de Jesus Cristo. A família Nascimento, da qual minha mãe descende, veio de Parafuso, distrito de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, onde a minha avó materna, Hilda, nasceu.

Gonçalves, meu segundo sobrenome, é português, hereditário, derivado do antropônimo Gonçalo, que em teutônico quer "dizer salvo na guerra". Inspirado nisso, Gonçalves significa "filho de Gonçalo". A família que leva esse sobrenome, da qual meu pai provém, emigrou do município de Mata de São João, também na Região Metropolitana, para fixar na capital baiana.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Veja versus Cazuza

Capa da bombástica edição 1.077 da revista Veja, de 26 de abril de 1989, cuja reportagem admitiu publicamente que Cazuza era soropositivo
(Foto de capa: Sérgio Zalis/ZNZ)

Hugo Gonçalves, Jessica Sandes, Laila Cristina e Lindiwe Aguiar
Estudantes de Jornalismo do Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge)

Artigo acadêmico orientado pelo professor Bernardo Carvalho, docente da disciplina Ética

Resumo

Este artigo explicita, em linhas gerais, o confronto gerado pela revista Veja contra Cazuza, um dos mais populares cantores e compositores de rock do Brasil, já padecendo dos sintomas da Aids, logo após a publicação, na edição de número 1.077, de 26 de abril de 1989, da polêmica reportagem A luta em público contra a Aids, sob o ponto de vista ético.

Palavras-chave: Veja, Cazuza, Aids.

1. Introdução

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, enfermidade mais conhecida por sua sigla Aids (de Acquired Immunodeficiency Syndrome, sua nomenclatura original inglesa), tinha, como primeiras vítimas, homossexuais ou bissexuais masculinos, usuários de hemoderivados e de drogas injetáveis, sendo apelidada, em seus primeiros anos, de “câncer gay”. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde citados pela jornalista pernambucana Tatiana Notaro, a epidemia contabilizou 474.273 ocorrências entre 1980 e junho de 2007.

Em julho de 1985, quando o repertório para o quarto disco do Barão Vermelho, banda carioca de rock na qual Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, era o líder, vocalista e letrista, já estava selecionado, veio aos jornais de todo o Brasil notícias sobre sua saída do grupo. No entanto, outros integrantes – Roberto Frejat (guitarra), Dé Palmeira (baixo), Maurício Barros (teclados) e Guto Goffi (bateria) – permaneciam. Com a saída de seu líder, seu vocalista e sua estrela maior rumo à carreira solo, Frejat assumiu o vocal.
De acordo com relatos registrados no livro Cazuza: Só as mães são felizes, de Lucinha Araújo, o cantor suspeitava que houvesse contraído o vírus da Aids em 1985. No dia 31 de julho daquele ano, Cazuza foi internado (num hospital do Rio com 42 graus de febre) e o primeiro diagnóstico revelou uma infecção bacteriana e "negativo" para a contaminação pelo HIV. Mesmo assim, a própria Veja levantou especulações: "Depois de sua foto publicada na revista Veja e mesmo negando a doença, as especulações sobre o verdadeiro estado de saúde de Cazuza se intensificaram" (ARAÚJO, 2004, p. 195 apud NOTARO, 2010, p. 4)
Naquela época, os exames hospitalares não eram muito precisos como são atualmente. Cazuza descobriu que era soropositivo – portador do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), causador da Aids – em 1987, aos 29 anos, às vésperas da estreia da turnê nacional de seu segundo disco da carreira solo, Só se for a dois. Ainda vivo, enfrentou os obstáculos ocasionados pela doença infectocontagiosa por intermédio de composições depressivas e tediosas, interpretadas corajosamente por seu autor.

Em outubro de 1987, após ser submetido a uma internação na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, Cazuza foi levado pelos pais, Lucinha e João Araújo, para Boston, nos Estados Unidos, onde permaneceu até dezembro. “Lá, passou quase dois meses críticos, submetendo-se a um tratamento com AZT. Ao voltar de Boston, gravou Ideologia no início de 1988, um ano marcado pela estabilização de seu estado de saúde e pela sua definitiva consagração artística. O disco vendeu meio milhão de cópias.” [CAZUZA (site oficial)]. A contracapa de Ideologia mostra a fotografia do cantor mais magro, abatido pelos efeitos da doença, com um lenço repleto de figuras disfarçando a ausência capilar em função do uso de medicamentos. No conteúdo do álbum, a maioria de suas canções expressou o processo de maturidade.

Um lúcido exemplo está em uma delas, Boas novas, cujo refrão diz “Senhoras e senhores/ Trago boas novas/ Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva”. A letra, de cunho autobiográfico, era um prognóstico alarmante de que Cazuza estava se definhando até ele morrer.

"Foi pouco depois do lançamento do álbum (seguinte, o ao vivo O tempo não para, no primeiro semestre de 1989), que ele reconheceu publicamente que estava com Aids, sendo a primeira personalidade brasileira a fazê-lo” [CAZUZA (site oficial)]. Sua afirmação de vida, em decorrência do vírus, era tão ilustre. À medida que suas condições vitais e sanitárias declinavam, Cazuza, ciente de sua efemeridade temporal, continuava trabalhando o suficiente. Entrou, de acordo com o site oficial do artista, “num processo compulsivo de composição”, e gravou, entre fevereiro e junho de 1989, numa cadeira de rodas, o álbum duplo Burguesia.
Para Cazuza, admitir ter Aids pode ter ajudado, mas ele enfrenta uma montanha russa de problemas. "Na última vez que me internei, foi por puro álcool", conta. "Eu, que deveria ter uma vida tranquila, sem beber nem me cansar, passei dois dias numa praia enchendo a cara de cachaça, de caninha 51 mesmo. Me dei mal, fui para a Clínica São Vicente e foi um milagre não ter morrido", lembra. Com acompanhamento psiquiátrico, calmantes e trabalho, Cazuza vem tentando se livrar do alcoolismo e das crises de depressão. Sempre que tem forças, ele vai ao estúdio da (gravadora) Polygram (hoje Universal Music) para, sentado e às vezes deitado, gravar o seu álbum duplo. Alguns amigos do cantor consideram que a gravação desse álbum – que tem a música Burguesia, em que afirma que a elite brasileira não é discreta nem tem charme – está contribuindo muito para manter Cazuza vivo. O problema é que ele já gravou músicas suficientes para encher não dois, mas três LPs. (...) Há um medo cada vez maior na gravadora de que Cazuza passe mal e venha a morrer dentro do estúdio. (ABREU; PORRO in VEJA, 1989, p. 86.)
Nesse período, Cazuza, com uma vida fragilizada, concedeu uma longa entrevista aos repórteres Ângela Abreu e Alessandro Porro, da sucursal de Veja no Rio, que disseminou a extensa, emblemática e polêmica reportagem a ser publicada na revista semanal de informação da Editora Abril em sua edição 1077, de 26 de abril de 1989.

Lançado em agosto, o quinto disco-solo de Cazuza, produzido por ele próprio, foi seu último registro fonográfico em vida. O trabalho seguiu uma concepção dual: no primeiro disco, de embalagem azul, preponderava o rock; no segundo, de capa amarela, a MPB. A faixa-título e de abertura do álbum resultou de uma parceria entre Cazuza, o jornalista e produtor musical Ezequiel Neves – falecido coincidentemente no mesmo dia em que a morte do cantor completou 20 anos, em 7 de julho de 2010 –, seu fiel escudeiro, e por George Israel, saxofonista e multi-instrumentista do grupo Kid Abelha. Com uma letra extensa repudiando o cotidiano e os valores da classe burguesa nacional, Burguesia chegou a ser executada nas estações de rádio, mas o álbum não assegurou êxito de vendas e foi modestamente recebido pelos críticos especializados em música.

Dois meses após o lançamento de Burguesia, em outubro de 1989, Cazuza regressou a Boston, onde encontrava-se internado até março do ano seguinte. Seu estado de saúde, segundo o site do cantor, “já era muito delicado”, portanto Cazuza não resistia aos sintomas da Aids, uma enfermidade explicitamente incurável. Faleceu no Rio de Janeiro, sua cidade natal, no dia 7 de julho de 1990, precocemente, aos 32 anos. A cerimônia fúnebre foi realizada no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul do Rio.

2. Análise ética da reportagem

Na semana correspondente ao dia 26 de abril de 1989, a revista Veja, da Editora Abril, publicava sua edição 1.077, que trazia o cantor e compositor na capa. A legenda dizia: “Cazuza – Uma vítima da Aids agoniza em praça pública”. Ao ler a matéria de capa, batizada A luta em público contra a Aids, Cazuza teve uma parada respiratória, sendo internado na Clínica São Vicente, no Rio. Conforme testemunho de Lucinha Araújo [1997, apud NOTARO (2009)], “Ângela Abreu alegou que, apesar de seu nome assinar a matéria ao lado de Alessandro Porro, ela não era a responsável pelo texto final, e que este sofrera edição na redação, em São Paulo. Na semana seguinte, Ângela pediu demissão à revista.” Segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros de 1987, em seu capítulo 3, artigo 11, “o jornalista é responsável por toda informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha sido alterado por terceiros.” (apud NOTARO, 2009, p. 5.)
(...) Há quatro anos, deixou a casa dos pais, Lucinha e João Araújo, diretor da gravadora Som Livre. Desde que soube que estava com Aids, Cazuza teve crises de desespero e quase quebrou toda a mobília por duas vezes: atirou garrafas na janela, chutou cristaleiras e jogou vasos no chão. "Assisti a uma dessas crises, uma cena terrível", lembra uma amiga do cantor. "Ele não estava tão magro como agora, mas nunca foi um gigante, e assumiu a postura de um Rambo enlouquecido, destruindo tudo que via pela frente. A quebradeira durou poucos minutos e depois veio o choro, dele e dos pais abraçados, num monumento vivo de desgraça entre os escombros da casa destruída." Lucinha Araújo, cantora bissexta, é quem cuida das finanças e propriedades do filho, que é dono de um apartamento, um Jeep e uma perua Belina, cobra 6.200 cruzados novos por show e vive de direitos autorais. "Não sei quanto tenho, mas sei que sou perdulário, que gasto tudo que posso e minha mãe toma conta de meu dinheiro", diz Cazuza. (ABREU; PORRO in VEJA, 1989, pp. 80-81)
Para assegurar que Cazuza estava de fato morrendo, os jornalistas deveriam utilizar-se de fontes confiáveis, provenientes de hospitais e/ou clínicas, apesar do débil estado de saúde do cantor, admitindo o artigo 7º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros de 1987. Ele diz que “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação” (apud NOTARO, 2009, p. 6). No entanto, a publicação semanal, segundo Notaro (2009), “toma para si o discurso médico” e, sem o consentimento dos profissionais que acompanhavam Cazuza durante a internação, redigiu sua sentença de morte. Recordemos que existem casos de aidéticos que tiveram uma longa vida, apesar da doença, como o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que conviveu com a Aids de 1986 a 1997, quando veio a óbito.
 
A reportagem de Veja, por ser considerada sensacionalista por alguns, explora, conforme Notaro (2009, p. 12), “a agonia de Cazuza e utiliza a imagem do cantor para justificar suas posições”. O próprio cantor e compositor, portanto, estava, também de acordo com Notaro (2009, p. 12), publicizando sua agonia, ou seja, tornando-a pública. “(...) a opinião velada e irônica da revista é costurada aos depoimentos de Cazuza, dos seus pais e amigos, em um discurso de agonia firmado pelo rosto do cantor, na capa. Seu suplício, pelo discurso de Veja, era resultado da vida desregrada, à base de bebidas, drogas e promiscuidade.” (Idem, 2009, p. 12.)

A partir de análises levantadas por Notaro (2009, p. 10), a edição 1.079 (17/05/1989) que circulou no estado de Pernambuco trouxe 58 cartas enviadas à redação de Veja, em São Paulo. Destas, apenas 27 apresentam discursos favoráveis à revista, “de leitores que consideram a matéria como uma ‘homenagem’ a Cazuza, ‘séria’, ‘realista’, ‘sensível’, ‘correta’ e ‘neutra’", sob a alegação de que Veja demonstrou a realidade de uma vítima da Aids. O parágrafo abaixo é uma transcrição de uma carta enviada pelo jornalista e então deputado estadual paulista Afanázio Jazadji, repudiando a matéria:
Recebam minha solidariedade pelo “desagravo” que esquisitas figuras promoveram contra a revista VEJA, no Rio de Janeiro, por documentar verdades sobre o irracional, abusado e indecoroso Cazuza. De triste memória, este aidético insultou famílias, ofendeu seguidamente o público em seus shows e até desrespeitou o símbolo máximo da nacionalidade – a nossa bandeira. Que os signatários do desagravo – lido em noite de gala e noticiado pela TV Globo – vão todos para os diabos e, ao ordinário Cazuza, que o inferno o receba, em breve e ardentemente. (JAZADJI in VEJA, 1989, p. 19).
O discurso expresso na carta apresenta um caráter extremamente agressivo. A revista, ao publicar esta manifestação, não apenas desrespeita a prática do jornalismo, como o cantor e àqueles que assinaram o manifesto contra a Veja. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, de 1987, justifica que, em seu artigo 10º, alínea “d”, “o jornalista não pode concordar com a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais, de sexo e de orientação sexual” (apud NOTARO, 2009, p. 11). Da mesma forma, a publicação da carta de Afanázio Jazadji incomoda o artigo 14, alínea “b”, afirmando que o jornalista deve “tratar com respeito a todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar” (apud idem, p. 11).

Na amostragem publicada por Veja em sua edição 1.079, que circulou em Pernambuco, parte dos leitores daquele estado compreendeu a matéria como sendo uma homenagem a Cazuza. Segundo Notaro (2009, p. 11), muitos não consideraram sensacionalista sua abordagem, mas esclarecedora sob o ponto de vista da doença e audaciosa ao desmistificar a atuação do vírus HIV em seres humanos. Houve também posicionamentos contraditórios em relação à carta de repúdio lançada por artistas no dia da entrega do II Prêmio Sharp da Música Brasileira, em 25 de abril de 1989. Na cerimônia, organizada no hotel Copacabana Palace, Cazuza recebeu o troféu de melhor disco na categoria pop-rock por Ideologia.

Outros leitores, em conformidade com a pesquisa da jornalista pernambucana, acusaram a maior revista semanal brasileira de informação de falta de respeito com Cazuza, “por ter explorado sua doença com sensacionalismo”. Das 27 cartas, uma chama atenção ao drama do ator Lauro Corona, galã dos anos 80, que viria a falecer em julho de 1989 e foi citado pelo cantor na matéria.
Ninguém tem padecido mais com esses boatos do que o ator Lauro Corona. Abatido, magro, pálido e com o cabelo mais ralo, ele se afastou da novela Vida nova (exibida pela TV Globo entre 1988 e 1989, no horário das seis) em meio a um intenso burburinho: tinha dificuldade em decorar os textos e se cansava facilmente. Lauro explicou que o seu papel exigia que ele trabalhasse ao lado de um forno de padaria num estúdio, o que lhe provocou problemas pulmonares. "Eu não estou com Aids, mas a campanha que a imprensa está fazendo contra mim é tão grande que eu passei a ser encarado como um maldito", disse o ator a VEJA há pouco mais de um mês, quando a onda de boatos chegou ao ápice. "É uma irresponsabilidade a imprensa noticiar especulações, provocando repercussões definitivas em minha vida profissional e afetiva", afirmou Lauro, que desde então vem se recusando a falar com jornalistas. (ABREU; PORRO in VEJA, 1989, p.86.)
E o argumento do leitor, alegando que “faltou respeito à pessoa do ator e ao seu direito de silenciar sobre seu estado de saúde”, tem respaldo no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, de 1987, que define em seu artigo 9º, alínea “g”, que é obrigatório, para o profissional, “respeitar o direito à privacidade do cidadão”. Pelos fragmentos de cartas de leitores adversários do conteúdo levantado pela revista Veja na matéria A luta em público contra a Aids, Notaro (2009) concluiu que ela é tratada como “informativo de imprensa marrom”, “injusta”, “grosseira”, “utilização oportunista (...) sem o mínimo de respeito humano”, “sensacionalista”, “apelativa”, “grotesca” e “sarcástica”.

Referências

ABREU, Ângela; PORRO, Alessandro. A luta em público contra a Aids. VEJA, ano 22, nº 1.077. São Paulo: Abril, 26 abr. 1989. Disponível em: http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_26041989.shtml e http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx. Acessos, respectivamente, em: 28 out. 2010 e 4 nov. 2010.

CAZUZA (site oficial). http://www.cazuza.com.br/sec_biografia.php?language=pt_BR&page=4, http://www.cazuza.com.br/sec_biografia.php?language=pt_BR&page=5, http://www.cazuza.com.br/sec_biografia.php?language=pt_BR&page=6. Acesso em: 4 nov. 2010.

JAZADJI, Afanázio. Cartas. VEJA, ano 22, nº 1.078. São Paulo: Abril, 10 mai. 1989.

MILLARCH, Aramis. A noite de Cazuza na dignidade da coragem. O Estado do Paraná, Curitiba, 28 abr. 1989. Disponível em: http://www.millarch.org/artigo/noite-de-cazuza-na-dignidade-da-coragem. Acesso em: 4 nov. 2010.

NOTARO, Tatiana. Cazuza: O caso da Veja 1.077 – Análise ética do discurso da revista Veja sobre a doença e morte de Agenor de Miranda Araújo Neto. Recife: Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), 2009.